SAÚDE, O EDITORIAL INEVITÁVEL
É inevitável, nesta altura, voltar a colocar a fragilidade do sistema nacional de saúde entre os temas de maior destaque do debate público. A combinação entre as informações sobre a ausência do Presidente da República, João Lourenço, do país, na sequência da sua deslocação ao Brasil por motivos de carácter privado, e as recentes declarações da ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, recolocam no centro da discussão uma das maiores fragilidades da governação.
É inevitável, nesta altura, voltar a colocar a fragilidade do sistema nacional de saúde entre os temas de maior destaque do debate público. A combinação entre as informações sobre a ausência do Presidente da República, João Lourenço, do país, na sequência da sua deslocação ao Brasil por motivos de carácter privado, e as recentes declarações da ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, recolocam no centro da discussão uma das maiores fragilidades da governação.
A ministra afirmou que a “verdadeira transformação do sistema nacional de saúde não passa apenas pelo número de hospitais construídos, equipamentos adquiridos ou profissionais formados”. A declaração, embora pareça simples, encerra uma das maiores questões da governação dos últimos anos: Angola precisa de deixar de medir o desenvolvimento apenas pelo volume de obras e começar a avaliá-lo pela capacidade real de as instituições responderem às necessidades dos cidadãos.
Quando chegou ao poder, em 2017, João Lourenço apresentou-se como um reformador económico. O combate à corrupção, a melhoria do ambiente de negócios, a atracção de investimento privado e a diversificação económica estavam no centro da promessa presidencial.
Com o passar dos anos, porém, a realidade exposta pelo quotidiano dos angolanos revelou os limites dessa ambição. O aumento do desemprego, o encerramento de empresas, a redução do investimento estrangeiro e a manutenção da forte dependência do petróleo mostram que a transformação económica prometida continua longe dos resultados esperados.
Foi neste contexto que a saúde ganhou maior espaço no discurso presidencial. João Lourenço passou a destacar os investimentos no sector, a construção de hospitais, a aquisição de equipamentos e o recrutamento de novos profissionais.
Mas a experiência dos últimos anos mostra que uma política de saúde não pode ser avaliada apenas pelo número de infra-estruturas inauguradas.
As palavras da ministra Sílvia Lutucuta são, neste sentido, um reconhecimento importante: Angola precisa melhorar a organização do sistema, reforçar a prevenção e garantir maior eficiência na prestação dos serviços.
Um hospital sem médicos suficientes, sem equipamentos adequados, sem medicamentos ou sem capacidade operacional é apenas uma estrutura física. A verdadeira política de saúde começa quando o cidadão consegue entrar numa unidade sanitária e encontrar uma resposta.
O problema é que o tempo joga contra João Lourenço. Com pouco mais de um ano de mandato pela frente, resta saber se a saúde ainda poderá ser o sector onde conseguirá construir o legado que não conseguiu na economia. Para isso, seria necessário concentrar todos os esforços em garantir que os grandes hospitais nacionais funcionem plenamente como centros de referência; reforçar a rede de cuidados primários; recuperar a importância dos postos de saúde comunitários; ampliar os programas de vacinação; e lançar uma verdadeira ofensiva nacional contra a malária, uma das principais causas de morte em Angola.
Parece muito para o tempo que resta. O mandato aproxima-se do fim e os próximos meses serão inevitavelmente condicionados pela preparação das eleições de 2027. A sucessão política, os equilíbrios internos do partido e a disputa eleitoral tenderão a ocupar parte significativa da agenda.
Mas é precisamente neste momento que se mede a dimensão de uma liderança. A qualidade de um sistema de saúde não deve ser avaliada apenas pelas cerimónias de inauguração ou pelos números apresentados em relatórios oficiais. Deve ser avaliada pela capacidade de responder quando um cidadão precisa. E mais: um Presidente que investiu na construção de hospitais será também avaliado pela confiança que esses mesmos hospitais transmitem. Porque um sistema de saúde verdadeiramente reformado não é aquele que existe apenas para os cidadãos comuns, mas aquele que qualquer angolano, independentemente da sua posição social ou política, pode confiar.







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