Inteligência Artificial desafia músicos angolanos a inovar sem perder a identidade cultural
TECNOLOCIA E CULTURA. Especialistas defendem que convergem na ideia de que a Inteligência Artificial representa um dos maiores desafios da música angolana contemporânea e que o futuro passa por um equilíbrio entre inovação e preservação cultural.
Investigadores ouvidos pelo Valor Económico defendem que as novas ferramentas de Inteligência Artificial estão a abrir caminho para uma “transformação sem precedentes na música angolana”, colocando os artistas “perante o desafio de modernizar os processos criativos sem comprometer a autenticidade dos géneros que definem a cultura nacional”.
Por exemplo, o jornalista, investigador cultural, crítico musical e escritor José Cristóvão da Silva Júnior, mais conhecido por José Weza, considera que a Inteligência Artificial não deve ser interpretada apenas como uma ameaça, mas também como uma oportunidade para impulsionar a criatividade dos músicos angolanos.
Na sua perspetiva, os artistas nacionais devem apropriar-se destas novas tecnologias para enriquecer os processos criativos, experimentar novas sonoridades e aumentar a competitividade da música angolana nos mercados internacionais, sem abdicar da sua identidade cultural.
Para o investigador, a inovação tecnológica deve caminhar lado a lado com a valorização dos géneros que definem a identidade musical do país, como o semba, a kizomba, o kuduro e o afrobeat produzido em Angola. Defende, igualmente, que a criatividade humana continuará a ser o principal elemento diferenciador da música, mesmo num cenário em que algoritmos conseguem produzir melodias e reproduzir estilos musicais com elevada precisão.
José Weza alerta, contudo, que a utilização da Inteligência Artificial exige um reforço da protecção dos direitos de autor e dos direitos conexos. Na sua visão, torna-se urgente criar mecanismos jurídicos que impeçam a utilização não autorizada de obras e vozes de artistas angolanos por plataformas tecnológicas.
A preocupação do investigador está em sintonia com o trabalho que tem desenvolvido ao longo dos últimos anos na preservação da memória musical angolana. Autor das obras “O Percurso Histórico da Música Angolana” e “A Música Angolana Contemporânea e Sua Evolução Estética”, José Weza tem procurado documentar a evolução dos principais géneros musicais do país, analisando os seus protagonistas, transformações e contributos para a identidade cultural nacional.
Na introdução da obra dedicada ao semba, o autor explica que o livro pretende reunir conhecimentos sobre a música nacional, apresentando o percurso de conjuntos musicais, bandas, compositores, instrumentistas e outras figuras que contribuíram para o desenvolvimento deste importante movimento cultural. Segundo defende, trata-se de um contributo para preservar a memória coletiva e, simultaneamente, responder à escassez de bibliografia científica disponível para estudantes, investigadores e académicos nacionais e estrangeiros interessados na música.
Para José Weza, a produção deste conhecimento assume particular importância numa época em que a Inteligência Artificial é capaz de reproduzir estilos musicais em poucos segundos, tornando ainda mais necessária a existência de registos históricos e científicos que permitam identificar, proteger e valorizar a verdadeira origem das manifestações culturais angolanas.
O músico e produtor Pedro Rosa partilha uma visão semelhante, ao analisar que a Inteligência Artificial dificilmente substituirá o talento, a sensibilidade e a vivência que caracterizam a criação artística, mas poderá tornar-se uma ferramenta poderosa para apoiar o trabalho dos músicos. Defende que os artistas angolanos devem investir na aprendizagem destas novas tecnologias para aumentar a qualidade das suas produções, explorar novas possibilidades criativas e reduzir custos de produção.
Pedro Rosa considera igualmente que a modernização tecnológica deve ser acompanhada por políticas públicas de proteção dos direitos dos criadores e por investimentos na formação dos profissionais do sector musical.









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