A incerteza da pandemia

15 Sep. 2020 Kenneth Rogoff Opinião

Os próximos meses vão nos mostrar muito sobre a próxima recuperação global. Apesar dos mercados de acções ser efervescente, a incerteza sobre a covid-19 permanece generalizada. Independentemente do curso da pandemia, a batalha mundial contra o vírus que vemos até agora, provavelmente afectará o crescimento, o emprego e a política por um longo período.

Vamos começar com as possíveis boas notícias. Num cenário optimista, os autoridades reguladoras terão aprovado pelo menos duas vacinas de primeira geração contra o covid-19 até o final deste ano. Graças ao extraordinário apoio regulador e financeiro dos governos, essas vacinas entram em produção antes mesmo da conclusão dos testes clínicos em humanos. Presumindo que sejam eficazes, as empresas de biotecnologia já terão cerca de 200 milhões de doses disponíveis até o final de 2020 e estarão a caminho de produzir biliões a mais. Distribuí-las será uma tarefa difícil, por si só, em parte porque o público precisa de ser convencido de que uma vacina feita às pressas é segura.

Com sorte, os cidadãos de países ricos que desejam a vacina poderão tê-la recebido até o final de 2021. Na China, praticamente todos terão sido vacinados até então. Alguns anos depois disso, o mesmo irá acontecer com a maior parte da população mundial, incluindo aqueles que vivem em economias emergentes e em desenvolvimento.

Esse cenário é verosímil, mas mesmo sabendo disso, ainda falta muito para que seja garantido. O coronavírus pode mostrar-se mais resiliente do que o esperado e as vacinas de primeira geração podem ser eficazes apenas por um curto período ou ter efeitos colaterais piores do que os previstos.

Mesmo neste caso, protocolos de teste aprimorados, desenvolvimento de tratamentos antivirais mais eficazes e melhor adesão por parte do público e (espera-se) dos políticos às directrizes comportamentais, levariam à normalização gradual das condições económicas. Vale a pena lembrar que a horrível pandemia da gripe espanhola de 1918-20, que matou pelo menos 50 milhões de pessoas em todo o mundo – muitas numa segunda onda mortal do tipo que actualmente tememos com o covid-19 hoje – e que por fim, enfraqueceu e desapareceu sem nenhuma vacina.

Mas num cenário mais pessimista, outras crises – um acentuado aumento nos atritos comerciais entre EUA-China, um ataque terrorista cibernético ou uma guerra cibernética, uma catástrofe natural relacionada ao clima ou um grande terramoto – podem ocorrer antes que esta termine. Além disso, mesmo o cenário optimista não implica necessariamente um rápido retorno aos níveis de rendimento do final de 2019. A expansão pós-pandemia – se houver – pode levar anos para atingir a definição moderna de recuperação (um retorno à rendimento per capita inicial ) após uma recessão profunda.

Embora a pandemia tenha ressaltado o enorme problema da desigualdade nas economias avançadas, os países pobres sofrem muito mais. Muitos mercados emergentes e economias em desenvolvimento provavelmente vão lutar contra o covid-19 nos próximos anos e vão enfrentar a possibilidade real de uma década perdida de desenvolvimento. Afinal, poucos governos têm a capacidade de fornecer apoio fiscal de emergência na escala que EUA, Europa e Japão estão a fazer. Recessões prolongadas em países de baixo rendimento provavelmente poderão levar a uma epidemia de crises de dívida e inflação.

Mas a crise da covid-19 também pode deixar cicatrizes profundas e duradouras nas economias avançadas. As empresas poderão estar mais receosas de investir e contratar, devido a preocupações com uma recaída na saúde pública ou outra pandemia, sem mencionar a enorme volatilidade política que a crise tem causado.

Embora possa haver uma onda inicial de 'retoma' dos gastos do consumidor nas economias avançadas, no longo prazo, os consumidores provavelmente irão economizar mais. Num artigo apresentado no recente simpósio anual de Jackson Hole, Julian Kozlowski, Laura Veldkamp e Venky Venkateswaran argumentam que os custos cumulativos de longo prazo da pandemia para a economia dos EUA são provavelmente uma ordem de magnitude maior do que os efeitos de curto prazo, em parte por causa de uma aumentada e duradoura sensação de mal-estar entre a população.

A análise deles é especialmente convincente no que diz respeito aos consumidores. Qualquer pessoa com pai ou avô que viveu durante a Grande Depressão dos anos 1930 sabe que essa experiência marcante afectou o comportamento deles ao longo da vida.

Além de seu impacto directo no investimento e na contratação, a covid-19 vai impor custos de produtividade de longo prazo. Quando a pandemia acabar, uma geração de crianças, especialmente as de famílias de baixos  rendimentos, terá, de facto, perdido um ano de escola. Os jovens adultos que lutam para encontrar o primeiro emprego num mercado de trabalho ainda moribundo podem esperar ganhar menos no futuro do que ganhariam se a situação fosse outra.

Existem alguns pontos positivos. Embora a pandemia tenha desencadeado um colapso no valor dos imóveis comerciais em muitas cidades, poderia levar a uma grande onda de novas construções e investimentos em áreas suburbanas, bem como em sofridas pequenas e médias cidades. Em geral, as empresas que não permitiram o trabalho remoto reconhecem agora que isso pode funcionar bem e trazer muitos benefícios. E embora não devamos esperar, a pandemia pode estimular os legisladores a encontrar maneiras de fornecer internet de banda larga universal e dar às crianças menos privilegiadas acesso facilitado aos computadores pessoais.    

A economia global está agora nma encruzilhada. A tarefa mais importante dos formuladores de políticas é tentar reduzir a enorme e constante incerteza e, ao mesmo tempo, fornecer ajuda emergencial aos indivíduos e sectores económicos mais afectados. Mas a insegurança alimentada pela covid-19 provavelmente será sentida na economia global muito tempo depois que o pior já tenha passado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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