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Banco BAI

Estará o ADN do sector privado angolano em mutação?

04 Feb. 2020 Opinião

De acordo com um estudo recente promovido pela International Finance Corporation (IFC) ‒ “braço financeiro” do Banco Mundial, que abriu recentemente um escritório permanente em Luanda, o sector privado angolano é largamente insipiente, tendo sofrido com décadas de intervenção do estado e de políticas deficientes.

O crescimento de Angola nos últimos 50 anos foi impulsionado pela despesa pública. A contribuição do capital privado para o crescimento tem sido historicamente muito baixa, em contraste com o resto da África Subsaariana, onde os investimentos privados desempenharam um papel significativo na economia. Ao nível da evolução, a contribuição do capital privado para o crescimento de Angola caiu ao longo do tempo, tendo sido negativa entre 1996-2014.

Segmentos importantes da economia continuam dominados por empresas públicas e empresas com ligações políticas. Angola é sede da maior Empresa Pública (EP) de África, a Sonangol. Apesar de várias ondas de privatizações nos finais dos anos 90 e 2000, os activos das EPs na carteira do IGAPE representam 78% do PIB do país. Só as receitas da Sonangol são equivalentes a 25% do PIB e os seus activos a 40%. As EPs têm uma presença dominante ou substancial na agricultura, transportes, construção e banca. O seu desempenho financeiro é, em média, deficiente e tem vindo a deteriorar-se ao longo dos anos. Excluindo os lucros da Sonangol (que sofreram decréscimo), as EPs estão globalmente a incorrer em perdas. Contudo, os empresários estreitamente ligados ao governo têm desenvolvido negócios bem-sucedidos em telecomunicações, distribuição, agronegócios e imobiliário, enquadrados num regime legal com preferência pela propriedade angolana.

O sector privado é esmagadoramente representado por sociedades unipessoais (55%) e, em média, as empresas são pequenas, empregando um número relativamente pequeno de pessoas (21 em média). Quase 60% das empresas estão concentradas em Luanda.  Construção e imobiliário, comércio e distribuição, bem como o financeiro figuram entre os sectores que prosperaram durante os anos do boom de petróleo. Num grau menor, telecomunicações e transporte aéreo também beneficiaram da economia em rápido crescimento. O crescimento destes sectores alterou a face da economia mas não o suficiente para colocar a economia numa trajectória de crescimento sustentável. As repercussões destes sectores para o resto da economia parecem ter sido modestas, na melhor das hipóteses.

A agricultura e a indústria transformadora, que por muito tempo têm sido priorizadas pelo Governo para apoio e expansão, não conseguiram desenvolver-se apesar de receberem grandes investimentos públicos.

Apesar dos obstáculos, as perspectivas de crescimento futuro parecem positivas. Angola beneficia de um grande mercado, o qual tenderá a ser maior ainda, dado que exibe o terceiro maior crescimento da população no continente Africano. Neste momento, Angola assume-se como a terceira maior economia de África Subsaariana, atrás da Nigéria e África do Sul, e como a sexta em PIB per capita.

Ciente destas potencialidades, a IFC trouxe consigo 111 milhões USD para ajudar a moldar o setor privado deste país, através do financiamento a pequenas e médias empresas. Uma nova e excelente oportunidade que deverá ser aproveitada pela iniciativa privada!