China, Rússia e a democracia em Angola

uma perspetiva realista de um chinês que vive e trabalha em Angola

10 Sep. 2026 Opinião

O tema que vou abordar hoje pode ser considerado um pouco sensível. Não pretendo discutir se a China está ou não a ajudar Angola a construir a democracia, nem afirmar simplesmente que a Rússia está a prejudicar a democracia angolana.

uma perspetiva realista  de um chinês que vive e trabalha em Angola
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O tema que vou abordar hoje pode ser considerado um pouco sensível. Não pretendo discutir se a China está ou não a ajudar Angola a construir a democracia, nem afirmar simplesmente que a Rússia está a prejudicar a democracia angolana.

Gostaria, antes, de partilhar algumas observações pessoais, na perspectiva de um chinês que vive e trabalha em Angola há vários anos.

Antes de mais, gostaria de dizer algo que talvez nem sempre seja fácil de ouvir: os problemas que a democracia angolana enfrenta actualmente não foram causados, em primeiro lugar, pela China nem pela Rússia.

Angola tem a sua própria história e tradição política. O país passou por uma longa guerra civil e possui uma realidade política própria. A longa permanência do partido no poder, a concentração do poder político, a dependência da economia do petróleo, a corrupção, os desafios relacionados com a independência judicial e a limitada capacidade de organização da sociedade civil têm raízes históricas e internas.

Actualmente, algumas organizações internacionais continuam a apresentar uma avaliação bastante crítica da situação democrática de Angola. No relatório de 2026, a Freedom House classificou Angola como “Not Free”, atribuindo ao país 28 pontos em 100, destacando limitações à oposição política, restrições ao espaço dos meios de comunicação social e da sociedade civil, questões relacionadas com a independência judicial e problemas de corrupção. Por isso, se atribuirmos todos estes problemas à China ou à Rússia, penso que estaremos a fazer uma análise pouco objectiva.

 

1. A China trouxe oportunidades de desenvolvimento para Angola, mas também pode reforçar a capacidade do Estado

A maior influência da China em Angola é, sobretudo, económica. Estradas, habitação, electricidade, telecomunicações, exploracção mineira, petróleo e numerosos projectos industriais são áreas em que a presença das empresas chinesas é visível.

Do ponto de vista dos chineses, viemos para Angola principalmente para investir, construir, desenvolver negócios e procurar oportunidades económicas. Não para mudar o sistema político de Angola. No entanto, existe uma questão importante: a cooperação económica também pode alterar, de forma indireta, a estrutura de poder de um país. Quando um Governo dispõe de mais recursos financeiros, melhores infraestruturas, maior capacidade administrativa e maiores capacidades tecnológicas, a capacidade do Estado também aumenta. Isso, por si só, não é negativo. A verdadeira questão é: à medida que a capacidade do Estado aumenta, a capacidade de supervisão da sociedade também aumenta na mesma proporção?

Se o Estado se torna cada vez mais forte, enquanto o Parlamento, os meios de comunicação social, o poder judicial, os sindicatos, as organizações da sociedade civil e os cidadãos comuns não fortalecem simultaneamente a sua capacidade de fiscalização, o aumento da capacidade do Estado pode acabar por resultar numa maior concentração do poder. É esta, na minha opinião, a questão que merece uma reflexão séria.

 

2. As empresas chinesas também precisam de reflectir sobre o seu próprio papel

Enquanto chinês que trabalha em Angola, gostaria de destacar particularmente este ponto. Muitas empresas chinesas que chegam a Angola concentram-se principalmente em questões como: conseguir o projecto? Concluir a obra dentro do prazo? Qual será o lucro? Como manter boas relações institucionais? Como acelerar os procedimentos administrativos? Tudo isto é importante. Mas fazemos poucas vezes uma pergunta: o que é que este projeto deixa para a sociedade angolana? Por exemplo: os trabalhadores angolanos adquiriram realmente novas competências? Os fornecedores locais conseguiram desenvolver-se? Os jovens angolanos tiveram novas oportunidades de emprego? O projeto é suficientemente transparente? As comunidades locais conhecem e compreendem o projeto? Os impactos sociais do projeto foram devidamente considerados?

Se as empresas chinesas mantiverem relações principalmente com o Governo e tiverem pouco contacto com a sociedade, as comunidades, as universidades, os meios de comunicação social, os sindicatos e os trabalhadores comuns, poderá surgir uma percepção perigosa:

“A China relaciona-se apenas com o poder e não com a sociedade.”

Penso que esta é uma questão que as empresas chinesas em África devem levar muito a sério. No entanto, na realidade, as empresas chinesas participam em muitas iniciativas de assistência social em Angola, fazendo donativos, orfanatos e lares de idosos. Organizam activamente donativos e mantimentos quando ocorrem catástrofes naturais. Pode dizer-se que as empresas chinesas se integraram na população local.

 

3. A questão da Rússia é diferente

A influência da China e da Rússia em Angola não ocorre exactamente da mesma forma. A China está mais associada à economia, às infra-estruturas, ao comércio e ao investimento. A Rússia está mais relacionada com a cooperação militar, a segurança, a geopolítica e, em alguns casos, o domínio da informação. Por trás destas duas formas de relacionamento existem duas lógicas diferentes. A China tende a enfatizar o desenvolvimento, o investimento, as infra-estruturas e os interesses económicos. A Rússia tende a enfatizar mais a segurança, a cooperação militar, os interesses estratégicos e a geopolítica. A segurança, por si só, não é um problema. Angola precisa de segurança e também precisa de cooperação militar. Mas existe um risco: quando um país coloca permanentemente a segurança acima de todas as outras questões, pode surgir uma lógica política segundo a qual, em nome da segurança nacional, determinadas liberdades sociais podem ser sacrificadas.

Quando essa lógica se torna habitual, opiniões divergentes, manifestações sociais, meios de comunicação independentes e até críticas de cidadãos comuns podem começar a ser interpretados como questões de segurança.

Isso é prejudicial para qualquer sistema democrático.

 

4. Existe ainda uma questão mais discreta: a informação

Na minha opinião, um dos maiores desafios que Angola poderá enfrentar no futuro não será necessariamente a interferência política tradicional, mas sim a disputa pelo espaço de informação. Actualmente, os jovens já não dependem principalmente dos jornais e da televisão para obter informação.Utilizam Facebook, WhatsApp, TikTok, YouTube e diversas plataformas digitais para compreender a política, a sociedade e os acontecimentos internacionais.

A China, a Rússia, os Estados Unidos, a Europa e outros países possuem os seus próprios sistemas de comunicação e influência internacional. Se o espaço de informação de um país for fortemente influenciado por forças externas, poderá surgir um problema: os próprios angolanos terão cada vez mais dificuldade em distinguir o que é informação verdadeira do que é propaganda ou manipulação. Isto pode ser mais perigoso do que a propaganda tradicional. Porque a democracia não exige que todas as pessoas tenham a mesma opinião.

A democracia precisa, sobretudo, de uma coisa: pessoas com opiniões diferentes devem poder discutir com base num conjunto mínimo de factos comuns. Se deixarmos de ter sequer uma compreensão comum dos factos, torna-se muito difícil manter um debate democrático saudável.

 

5. Mas não considero que Angola deva afastar-se da China ou da Rússia

Este é um ponto que considero particularmente importante. Angola não precisa de escolher simplesmente entre a China, a Rússia e o Ocidente. O que Angola realmente precisa é de cooperar com quem possa contribuir para o seu desenvolvimento, mas não permitir que nenhuma potência externa determine o seu sistema político. A China pode fornecer infraestruturas. A Rússia pode fornecer cooperação no domínio da segurança. Os Estados Unidos e a Europa podem fornecer capital, tecnologia e acesso a mercados. Portugal pode desempenhar um papel especial devido à língua e aos laços históricos. Outros países também podem participar. O verdadeiro desafio para Angola é transformar todas estas relações externas em recursos para o desenvolvimento nacional, sem permitir que Angola própria se transforme em recurso de qualquer potência externa. Isso é verdadeira soberania nacional.

 

6. Penso que os chineses em Angola também devem repensar o seu papel

Falamos frequentemente de “amizade entre a China e Angola”. Acredito sinceramente nessa amizade. Mas a amizade não deve existir apenas entre governos. Também deve existir entre empresas chinesas e trabalhadores angolanos; empresas chinesas e comunidades locais; chineses e cidadãos angolanos comuns. Se um jovem angolano aprender uma profissão graças a uma empresa chinesa, conseguir um emprego e melhorar as condições de vida da sua família, naturalmente terá uma visão mais positiva da China. Mas se um cidadão local tiver a perceção de que: “as empresas chinesas trouxeram apenas trabalhadores chineses, os projectos beneficiam principalmente os chineses e os lucros regressam à China, enquanto os angolanos comuns não têm verdadeiras oportunidades.”

Então, mesmo que as relações entre os Governos sejam excelentes, as relações entre os povos poderão deteriorar-se. Por isso, considero que o maior risco de longo prazo para as empresas chinesas em Angola não é necessariamente a concorrência, mas sim a formação de uma perceção negativa da sociedade angolana em relação às empresas chinesas.

 

7. Gostaria de apresentar três recomendações às empresas chinesas

Primeiro: não devemos construir relações apenas com o Governo; devemos também construir relações com a sociedade.

Segundo: não devemos preocupar-nos apenas com o lucro dos projectos; devemos também pensar no que esses projectos deixam para Angola.

Terceiro: não devemos tratar os trabalhadores angolanos apenas como mão de obra; devemos ajudá-los a tornar-se profissionais, parceiros e participantes no desenvolvimento.

Se as empresas chinesas conseguirem fazer isso, estarão, na realidade, a contribuir para a construção de uma estrutura social mais saudável em Angola. Isto não é uma questão de política partidária. É uma questão de responsabilidade social empresarial e também de desenvolvimento sustentável das próprias empresas chinesas.

 

8. Finalmente, gostaria de colocar uma questão fundamental

Que tipo de democracia Angola realmente precisa? Na minha opinião, esta questão não pode ser decidida pela China. Também não pode ser decidida pela Rússia. Muito menos pelos Estados Unidos ou pela Europa. Deve ser respondida pelos próprios angolanos. Os países estrangeiros podem oferecer experiências, financiamento, tecnologia e sugestões.

Mas, no final, o sistema político adequado a Angola, o caminho de desenvolvimento adequado a Angola e a forma de democracia adequada à realidade angolana devem ser determinados pela própria sociedade angolana.

A China não deve tentar copiar o seu próprio sistema político para Angola. Da mesma forma, a China não precisa de considerar que, por existirem diferenças entre o seu sistema e os modelos democráticos ocidentais, Angola deve necessariamente seguir um modelo ocidental. O que a China realmente pode fazer é ajudar Angola a desenvolver a sua economia, formar profissionais, construir infra-estruturas, criar emprego e, ao mesmo tempo, respeitar o direito do povo angolano de escolher o seu próprio futuro. Penso que esta é a verdadeira essência da amizade entre a China e Angola. Se um dia um cidadão angolano puder dizer com tranquilidade: “Damos as boas-vindas à China porque a China nos ajuda a desenvolver; damos também as boas-vindas à Rússia, aos Estados Unidos, à Europa e a outros países porque temos liberdade de escolha; mas, no final, quem decide o futuro de Angola são os próprios angolanos.” Então, na minha opinião, estaremos perante uma Angola com verdadeira autonomia estratégica e verdadeiro potencial democrático.