RELATÓRIO DA AFRICA NO FILTER

Agências internacionais dominam notícias nos países africanos

26 Jan. 2021 Lúcia de Almeida Mundo
Agências internacionais dominam notícias nos países africanos

Um relatório da Africa No Filter, elaborado entre Setembro e Outubro de 2020, revelou que um terço das notícias e histórias africanas relatadas pelas agências noticiosas do continente é obtido através de serviços de notícias estrangeiros.  

O relatório denominado ‘How African Media Covers Africa’ (Como é que os Meios de Comunicação Social Africanos Cobrem as Notícias de África) destaca o facto de as histórias sobre África continuarem a ser contadas através dos mesmos “estereótipos persistentes e negativos”, com especial incidência nas questões relacionadas com a pobreza, a doença, os conflitos, a fraca capacidade de liderança e a corrupção. 

Os principais resultados do estudo mostram que as fontes de obtenção de notícias nos países africanos são “problemáticas” e que os conteúdos resultantes continuam a alimentar antigos estereótipos, sendo que, frequentemente, a qualidade do jornalismo local não possibilita a existência de relatos contextualizados, com todas as nuances, fundamentais para contar o que se passa nos 54 países que compõem o território africano. 

O estudo envolveu 38 editores africanos e analisou conteúdos de 60 agências noticiosas africanas de 15 países nomeadamente Botsuana, África do Sul, Zâmbia, Zimbábue, RDC, Egito, Tunísia, Tanzânia, Etiópia, Quénia, Ruanda, Uganda, Gana, Nigéria e Senegal.  

Segundo os dados, 63% das agências noticiosas inquiridas não têm correspondentes noutros países africanos e um terço de toda a cobertura de notícias sobre África é proveniente de fontes não africanas. As histórias da AFP e da BBC representam um quarto de todas as histórias encontradas nas agências noticiosas africanas que falam sobre outros países africanos.  O contributo das agências noticiosas africanas é mínimo. 81% das histórias foram classificadas como ‘hard news’ (notícias duras), ou seja, notícias sobre conflitos e crises decorrentes de certos eventos - além disso, na sua grande maioria, as notícias encontradas eram de natureza política. Cerca de 13% das notícias concentravam-se, especificamente, em situações de violência política, de agitação social e de conflitos armados.   

A África do Sul e, a seguir, o Egito foram os países que apresentaram uma cobertura mais diversificada e não necessariamente associada a eventos noticiosos, o que significa que esses dois países são, provavelmente, os “mais conhecidos” do continente. A Africa No Filter é uma organização sem fins lucrativos que foi constituída o ano passado com o objectivo de ajudar a mudar as narrativas “prejudiciais e estereotipadas” sobre África, através de trabalhos de pesquisa, de iniciativas de defesa de interesses e da concessão de subsídios a quem conta as histórias. 

Em resposta a este relatório, a Africa No Filter está a proceder ao lançamento da primeira e única agência de notícias do continente, que concentrará os esforços no tratamento de histórias sobre criatividade, inovação, arte e cultura e interesses humanos, a fim de preencher a lacuna que existe no mercado. 

X