E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana marcada pelo rescaldo de mais um dos acidentes brutais nas nossas estradas.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana marcada pelo rescaldo de mais um dos acidentes brutais nas nossas estradas. O penoso processo de identificação das vitimas carbonizadas terminou e é de uma brutalidade incompreensível, recém formados que iriam contribuir para o desenvolvimento do país, noivos esperançosos a caminho de distribuir convites para o casamento, recém nascidos a caminho da apresentação à família com os pais, pais, filhos, primos, sobrinhos, de famílias que ficaram destroçadas, enfim vidas cortadas a meio... vidas cortadas no início... tudo com a violência instantânea de segundos.
Continua a ser surpreendente a dessensibilização que o tema da mortalidade nas estradas angolanas, porque é tão frequente, vai causando, e prova de que o ser humano consegue habituar-se às condições mais ignóbeis.
No ano passado o Ministério do Interior anunciou um programa que iria actuar em várias frentes, na fiscalização, prevenção, reeducação, identificação de focos de acidentes e elaboração de medidas de controlo, mas continua a parecer tudo muito pouco de cada vez que nos aparece um destes acidentes que leva dezenas de uma assentada... que leva promessas, vidas plenas de investimento, tudo esfumado rapidamente.
Nove ou dez pessoas é a estimativa de mortos todos os dias nas estradas de Angola.
Os angolanos circulam com base na fé diária de que não vão entrar - de que os seus filhos e de que os seus pais - vão vão entrar para essas estatísticas tenebrosas. E circulam na base dessa fé por falta de alternativa, para ser possível funcionar no dia a dia. Mas todos os dias entram mais nove ou dez pessoas para a longa lista de mortos, uma média de três mil ano que convive connosco há vários anos e que não abate. A guerra dos nossos dias é também com as estradas.
Nos casos das províncias pergunto-me como é possível incentivar o turismo interno quando as estradas se assemelham a matadouros?
E não vemos assunção de culpa por parte de quem governa. O mau estado das estradas, a falta de iluminação, de sinalização e de capacidade de socorro estão frequentemente entre as razões menos citadas pelo governo no que toca à mortalidade nas estradas. Para sacudir a água do capote, são sempre postas à frente as razões atribuíveis aos utentes das estradas: excesso de velocidade, embriaguez, neste último, tráfico de combustível, falta de manutenção dos veículos, falta de formação dos condutores…
O reconhecimento do que não se faz, ou do que se faz mal, é parte do processo de correcção, e é uma parte de que os nossos governantes costumam fugir como o ‘diabo da cruz.’
Esta semana também a marcar a actulidade estiveram mais pesadelos nas estradas mas de outra (e felizmente menos mortífera) ordem. Como se as estradas do país já não fossem ameaçadoras o suficiente e precisassem da ajuda da má gestão de recursos para as tornar ainda piores, esta semana foram notícia as longas filas para abastecer no Cuanza Sul, e há relatos que nos vão chegando de outras províncias mais habituadas à falta de combustível e que nesta altura sofrem ainda mais com os efeitos da guerra no Irão, que vai suprimindo e encarecendo o combustível pelo mundo fora.
E agora pergunto: não era a Sonangol que, há pouco tempo, negava publicações do VE e outros jornais que alertavam sobre futuras faltas de combustível no país? E o VE e outros títulos fizeram essas publicações porque, analisando a conjuntura, falando com os especialistas do sector, essas faltas eram previsíveis... Mas o peito alto dos que diziam que era tudo falar à toa? Vontade de negativismo? A veemência com que negavam? Como escrevia o Novo Jornal na semana que passou, agora foi o governo a assumir o que a Sonangol negava. Desta feita pela voz do Ministro dos Recursos Minerais Petróleo e Gás, segundo o qual o país atravessa de facto dificuldades de abastecimento de combustíveis. As longas filas que se vão registando um pouco por todo o país são difíceis de negar, mas mais do que isso, usar tempo e recursos públicos para desmentir o que os jornais como o VE escrevem, em vez de usar os alertas que dão para se preparar para as situações sobre as quais estão a ser avisados, constitui também ‘má gestão de recursos.’ Uma de muitas formas de má gestão de recursos que nos afligem e que de uma forma ou de outra, prejudicam tanto o país. Que resultam em factos como outro reportado pelo VE sobre a manutenção de Angola entre a lista de países que não cumprem requisitos mínimos de transparência fiscal do Departamento de Estado dos EUA. País onde Angola gasta milhões anualmente para melhorar a imagem - em vez de melhorar efectivamente as causas da má imagem para que tenhamos um país que é melhor para os angolanos em vez de um que parece melhor para os estrangeiros.
Segundo o Departamento de Estado Americano, o governo não facilita o acesso às contas públicas e deveria apresentar uma visão completa das receitas e despesas previstas, incluindo as provenientes dos recursos naturais, discriminadas por ministério e por fonte e tipo de despesa, para além de transparência nos contratos e licenciamentos que entre nós, com a febre das adjudicações directas, são sempre tão pantanosos… A contínua má gestão de recursos nas suas diferentes e múltiplas formas, mas é com esperança sempre querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima na sua Rádio Essencial.




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