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‘Pay-As-You-Go’ para o desenvolvimento africano

17 Dec. 2019 Opinião

O aumento dos serviços digitais pré-pagos (PayGo) em África é motivo de comemoração. Ao permitir que as populações de rendimento baixo, tanto rurais como urbanas, tenham acesso a bens e serviços necessários para sobreviver (comida, água e abrigo), mas também para prosperar (educação, assistência médica e activos geradores de rendimento), o modelo de negócios PayGo pode melhorar significativamente a sua qualidade de vida. De facto, se tiverem apoio suficiente, os modelos PayGo podem revolucionar o fornecimento de bens e serviços, estimulando o desenvolvimento inclusivo.

Os modelos digitais PayGo aproveitam a comunicação ‘máquina para máquina’ e a tecnologia de sensores para permitir que as empresas controlem o uso, bloqueiem ou desbloqueiem os seus recursos e acedam a dados relevantes remotamente. Isso, juntamente com mecanismos de fixação de preços flexíveis, possibilita às empresas oferecerem bens e serviços aos consumidores com capital limitado e fluxos de rendimento variáveis, trazendo melhorias imediatas aos padrões de vida.

Por exemplo, ao reduzir o custo inicial de máquinas agrícolas, moinhos e sistemas de irrigação, os modelos PayGo permitem aos agricultores aumentarem a sua produtividade e, por sua vez, os seus rendimentos. Para isso, a ‘start-up’ nigeriana Hello Tractor, em parceria com o fabricante global de tractores John Deere, criou um programa que oferece a pequenos agricultores na Nigéria, Quénia e Moçambique acesso a pedido aos equipamentos da empresa.

Além disso, os modelos PayGo estão a ajudar a expandir o acesso a serviços. Ao aproveitarem a queda nos custos de baterias solares, num continente sem escassez de sol, os chamados serviços de próxima geração, como a BBOXX, que opera em 12 países, incluindo Togo e Ruanda, estão a oferecer sistemas domésticos solares baseados no PayGo para as comunidades que estão excluídas das redes eléctricas ou vivem sem acesso fiável à energia.

A BBOXX também está a aplicar o seu modelo PayGo para equipar indivíduos, famílias, comunidades e pequenas e médias empresas com recursos geradores de rendimento, como equipamentos de cozinha não poluentes, moinhos eléctricos e sistemas de irrigação movidos a energia solar. A localidade togolesa de Sikpé Afidégnon é um excelente exemplo de como isso funciona na prática, uma vez que a parceria da BBOXX com a EDF Energy energizou toda a localidade com electricidade solar PayGo.

Em toda a África, as metodologias do PayGo estão a facilitar o fornecimento de bens públicos e produtos de consumo – tais como iluminação de bairro, estações de carregamento de telemóveis, centros de aprendizagem ligados à Internet, rádios, televisões e ventiladores – às comunidades. De facto, à medida que as taxas de penetração móvel em África foram aumentando – Togo atingiu 82,6% de penetração – e o dinheiro móvel proliferou, a aplicação de modelos de negócios PAYGo digitais tornou-se mais fácil do que nunca. E o potencial do PayGo está apenas a começar a ser explorado.

Por exemplo, as soluções PayGo podem desempenhar um papel poderoso no aumento da inclusão financeira, pois os dados gerados pelas microtransacções e tendências de uso formam um historial de crédito para os consumidores que, de outra forma, poderia ser difícil de criar. Além de melhorar o acesso a serviços financeiros, como empréstimos ou micro-empréstimos, esse registo poderia permitir-lhes adquirir um seguro de saúde ou de vida.

Tudo isso ajudaria muito a melhorar o bem-estar geral, a aumentar a produtividade e a promover o crescimento inclusivo. Mas, para aproveitar ao máximo esta oportunidade, não é só o sector privado que tem de continuar a investir em soluções PayGo; o sector público também tem de se envolver. Afinal de contas, uma das responsabilidades mais fundamentais do governo é garantir que as necessidades básicas das pessoas sejam atendidas e que tenham oportunidades para prosperar.

Para começar, os governos deveriam fornecer subsídios que reduzam ainda mais as taxas de inscrição para clientes de rendimento baixo. Isso pode ser alcançado através de parcerias público-privadas que diminuam o custo dos sistemas domésticos solares PayGo, como a que foi criada com a BBOXX. Togo assumiu a liderança através do programa ‘chèque solaire CIZO’, que oferece subsídios direccionados aos consumidores e fornece acesso acessível a sistemas domésticos solares de alta qualidade. Esta iniciativa foi possível graças aos dados dos clientes gerados pelos métodos PayGo. Os governos também deveriam criar incentivos para as empresas expandirem amplamente as soluções PayGo às comunidades rurais e urbanas e investir nas cadeias de valor PayGo.

Para promover ainda mais o PayGo, Togo vai testar, em breve, uma plataforma de código aberto unificada que liga os consumidores aos fornecedores de bens e serviços PayGo. Espera-se que a plataforma ofereça a qualquer empresa privada, que deseje fornecer bens e serviços às populações rurais, a capacidade de gerir equipamentos remotamente, acesso centralizado a dados sobre gastos de clientes e a um sistema seguro de processamento de pagamentos móveis. Os consumidores, por sua vez, não beneficiam apenas de um acesso mais fácil aos produtos PayGo; as suas tendências de uso são recolhidas de forma fiável e segura, criando assim os historiais de crédito tão necessários para aumentar a inclusão financeira.

Os esforços para melhorar a qualidade de vida, muitas vezes, resumem-se a custos. As famílias rurais e de rendimento baixo não se podem dar ao luxo de investir em bens e serviços que aumentem a produtividade; e os governos não se podem se dar ao luxo de fornecê-los. Os modelos de negócios inovadores PayGo contornam esses obstáculos. Como resultado, o PayGo digital pode muito bem representar uma mudança de paradigma na procura pelo desenvolvimento económico inclusivo. É, por isso, que, como governantes africanos, temos de o apoiar.