AS CONTAS ERRADAS DO PRESIDENTE

13 Oct. 2020 V E Editorial

A entrevista de João Lourenço ao Wall Street Journal (WSJ) é mais um exemplo que vem a propósito. Que vem para reconfirmar a tese de que o Presidente da República não perde uma oportunidade para cruzar a agenda política e a da justiça em proveito próprio. E não necessariamente no interesse do Estado. Já o escrevemos aqui na semana passada, aquando da manobra de distracção criada com a coincidente chamada dos generais ‘Kopelipa’ e ‘Dino’ à Procuradoria-Geral da República. Ambos ex-poderosos foram convocados justamente na altura em que as atenções de toda a sociedade se concentravam no ‘caso Edeltrudes’. Mas, como também avisámos, o tiro corria o risco de sair pela culatra. E os factos não o desmentem.

Como destaca a manchete desta edição, analistas, entre os quais um membro do Conselho Económico e Social, exigem que João Loureço esclareça o envolvimento do seu director de gabinete em negócios com o Estado. Negócios autorizados pelo próprio Presidente da República, que valem milhões de dólares e que terão servido para a aquisição de propriedades no exterior, incluindo em paraísos fiscais, segundo a denúncia original da imprensa portuguesa. Mais do que a exibição dos troféus ‘Kopelipas’ e ‘Dinos’, é sobre Edeltrudes Costa que todos esperam esclarecimentos e pedem que João Lourenço o faça numa oportunidade tão significativa como no discurso sobre o ‘estado da Nação’. Simbolicamente, a comunicação ordinária mais importante do calendário político do Presidente.

Se a entrevista ao WSJ, entre outros propósitos, visou arrefecer a excessiva atenção ao director do gabinete do Presidente, o objectivo ficou longe de ser alcançado. Pelo contrário, o momento escolhido para as revelações de desvios no erário é tão óbvio que as suspeitas de tentativas de distracção da sociedade se reforçaram. Afinal, João Lourenço tem marcação, por força da Constituição, para estar obrigatoriamente na Assembleia Nacional esta quinta-feira, para a abertura do ano parlamentar. E toda a lógica sublinha que o Presidente deveria ter esperado o momento solene para apresentar resultados aos angolanos, antes de prestar contas ao estrangeiro. A pressa em colocar para fora números bombásticos, mas que a ninguém surpreendem, fez com que o esperado discurso sobre o estado da Nação ficasse mais vigiado.

Mas os 24 mil milhões de dólares denunciados por João Lourenço ao WSJ levantam mais dúvidas. Umas sobre a lisura da justiça e outras sobre a veracidade dos números. Ao que parece, o Presidente incluiu, nas suas contas, valores e activos em disputa na justiça e que, por isso, não deviam ser considerados ainda pertença efectiva do Estado. Se o Presidente pensa o contrário, é porque está convencido de que só há uma decisão possível na justiça, a vitória do Estado. E se essa vitória está assim tão previamente garantida em todos os casos não é pela confiança na razão do Estado, é pela certeza na arrogância do poder e na instrumentalização da justiça. Por esta e pelas razões lembradas por várias organizações que apontam relatórios com desvios muito superiores aos referidos por João Lourenço, só há uma conclusão possível: as contas do Presidente só podem estar erradas.

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