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PME: a melhor defesa de África contra a pandemia

24 Jun. 2020 Opinião

A covid-19 está a ter um impacto devastador na economia global. À semelhança de todos os continentes, África prepara-se para uma significativa crise económica. No entanto, apesar da inevitável recessão, a pandemia criou uma oportunidade única para promover o crescimento das pequenas e médias empresas (PME) no continente africano.

Empoderar as PME do continente poderia limitar as consequências económicas a longo prazo da pandemia. Ao criar o ambiente certo para os jovens empreendedores e as ‘startups’ implementarem as soluções inovadoras que estão a emergir da crise, os países africanos têm uma oportunidade para estimularem a criação de empregos. Isto é crucial num continente onde a taxa de emprego dos jovens é de 16% e onde entre 10 e 12 milhões de jovens ingressam no mercado de trabalho todos os anos.

Desde o início do surto, jovens empresários e PME têm-se envolvido activamente no desenvolvimento de inovações para combater os efeitos potenciais do vírus nos países africanos. Do ‘Solar Wash’, um dispensador de água sem necessidade de contacto físico e movido a energia solar, no Gana, às ferramentas de triagem, na Nigéria, e a plataforma de rastreio remoto ‘DiagnoseMe’ para a covid-19, no Burkina Faso, os jovens africanos estão a conceber soluções locais engenhosas para ajudar a prevenir a propagação da doença.

As PME de África demonstraram a sua flexibilidade e adaptabilidade. Por exemplo, no Quénia, uma fábrica têxtil foi transformada numa linha de montagem de máscaras cirúrgicas no espaço de uma semana. No Senegal, o Instituto Pasteur de Dakar desenvolveu um protótipo de um teste de diagnóstico para a covid-19 que demora dez minutos a apresentar o resultado.

Se forem comercializadas e a sua escala aumentada, essas inovações poderão criar mais empregos. Um exemplo está no sector farmacêutico. De acordo com a Comissão Económica das Nações Unidas para a África, há 16 milhões de empregos que ficam comprometidos, todos os anos, devido à importação de produtos farmacêuticos no valor de 14 mil milhões de dólares. A fábrica de máscaras cirúrgicas no Quénia já emprega 400 trabalhadores, incluindo 320 mulheres, e planeia usar a receita das vendas para abrir mais duas unidades. O Instituto Pasteur de Dakar formou uma parceria com uma empresa britânica de biotecnologia para obter a certificação internacional. A produção em massa conduzirá, provavelmente, a novas contratações de jovens, homens e mulheres, senegaleses.

Com os recursos adequados, estas inovações poderiam apoiar as indústrias transformadoras que reforçariam as defesas de África contra a covid-19 e criariam empresas sustentáveis a longo prazo, oferecendo empregos estáveis. Além de garantir o acesso ao capital inicial, os governos deveriam criar um enquadramento regulamentar transparente e confiável que facilite o empreendedorismo e incentive os investidores.

O acesso ao capital é provavelmente o desafio mais significativo para as PME africanas. Embora muitas instituições mundiais já forneçam capital, as fontes locais deveriam desempenhar um papel mais significativo no apoio ao crescimento das PME. O Instituto Pasteur de Dakar obteve um financiamento inicial para o seu ‘kit’ de testes para a covid-19 do governo britânico e da Fundação Bill & Melinda Gates. A plataforma DiagnoseMe recebe financiamento do Fundo de Desenvolvimento de Capital das Nações Unidas. Mas a maioria dos parceiros internacionais acha difícil trabalhar com PME que tenham necessidades mais modestas.

A nível nacional, vários governos africanos criaram fundos destinados à covid-19 para combater a doença e convidaram filantropos e empresas a contribuir. Embora a maioria dos fundos se concentre no fortalecimento dos sistemas de cuidados de saúde e na assistência aos membros mais vulneráveis das suas sociedades, alguns serão designados para a criação de empregos e recuperação económica. Uma das melhores formas de o fazer é fornecer microfinanciamento a novas empresas, permitindo que as PME invistam e cresçam.

Não há dúvida de que os doadores empresariais do continente estão a atender ao apelo. Na África do Sul, os empresários contribuíram com quase 150 milhões de dólares para o Fundo de Solidariedade do governo. Na Nigéria, os CEO de grandes empresas irão financiar equipamentos médicos e tendas médicas totalmente equipadas. Mas os líderes empresariais podem fazer mais. O financiamento para a fase inicial, o capital de arranque e ‘wroksh

jovens inovadores são outras maneiras de impulsionar o empreendedorismo. Da mesma forma, os programas pan-africanos, como o da Fundação Tony Elumelu, deveriam aumentar os respectivos esforços.

Garantir que as PME do continente tenham acesso ao capital e ao conhecimento de que precisam é fundamental para combater efetivamente a covid-19. As soluções de propriedade africana que sejam adaptadas às condições locais e criem valiosas oportunidades de emprego podem ser a chave para mitigar o impacto económico da pandemia. Há até razões para se ter esperança de que as condições difíceis irão produzir jóias preciosas inesperadas.

 

 

Presidente do UNITLIFE, fundo de financiamento das Nações Unidas ao combate à desnutrição crónica.