CHINA E RÚSSIA

Unidos para destronar o dólar

28 Oct. 2020 Gestão

CONCORRÊNCIA. A guerra comercial entre os EUA e a China levou a segunda maior economia do mundo a procurar diminuir a dependência na economia norte-americana. Ao virar da esquina estava a Rússia, pronta para se aliar, e entre os dois países o uso de ‘verdinhas’ caiu para 46% em 2020.

Unidos para destronar o dólar

Se a China, devido ao forte investimento em títulos americanos, evitou até aqui confrontos abertos com os EUA, as políticas de Donald Trump e a suas ameaças de sanções, obrigaram o gigante asiático a sair de cima do muro e a efectivar mudanças para se libertar do poderio americano.

E esse poderio é expresso em dólares que comandam ainda a maioria das reservas e transacções internacionais. Uma realidade que há muito a Rússia manifestava vontade em ver mudar e que se tornou prioridade desde 2014, quando, por causa da Crimeia, a Rússia se viu alvo de sanções americanas e sentiu necessidade de contornar o uso do dólar. O recurso à moeda americana carece sempre de passagem pelas instituições bancárias da maior economia mundial e, por isso, está sujeita a congelamentos de acordo com as instruções do governo americano.

Quando Trump impôs pesadas tarifas às importações chinesas e ameaçou as relações bilaterais com a China, o governo chinês passou a ver as ‘dores’ dos russos, como possibilidade futura para os seus e decidiu tomar medidas para minorar a exposição e a dependência do dólar.

Em Junho do ano passado, os presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping reuniram-se na Rússia e acordaram substituir o dólar nas suas transacções bem como a criação de um sistema de pagamento alternativo ao swift que é dominado pelos EUA. A aliança surpreendeu pelo direccionamento mais financeiro da orientação política do que o esperado comercial ou militar.

Para além da diminuição do uso do dólar entre os dois países de 90% em 2015 para 46% no início deste ano, foi firmado um acordo que prevê desde 2014 trocas de moeda directas de até 150 mil milhões de renminbi (24,5 mil milhões de USD). E actualmente, ambos os países diminuem activamente as suas reservas em dólar.

A Rússia cortou mais de metade dos seus activos em dólar – mais de 100 mil milhões de USD – e aumentou de 5% para 15% as reservas em renminbi. E há três meses consecutivos que a China diminui paulatinamente os activos em títulos americanos, já que uma descida abrupta levaria também a uma perda de valor pelo que os economistas chineses aconselham cautela. No entanto, a diversificação do portfolio das reservas chinesas já se faz sentir. A China triplicou, desde o ano passado, as reservas em dívida soberana japonesa para mais de 13 mil milhões de USD enquanto o dólar desceu de 1.8 biliões de USD em reserva para 1.07 biliões de USD.

A hegemonia do dólar assenta essencialmente na confiança na economia americana, mas também em outros factores nomeadamente a capacidade de manutenção do valor e limitada inflação e depreciação, e a abertura, liquidez e dimensão dos mercados americanos que sustentam a confiança na economia líder. Factores difíceis de destronar. No entanto, a aposta mundial no ouro, e a perda de valor continuada do dólar associada à banalização de sanções e das relações comerciais internacionais, têm o dólar fragilizado a ponto de ameaçar a sua posição.

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