Recuperação pós-pandemia

Stocks mundiais de cabeça para baixo e preços inflacionados

16 Jun. 2021 Valor Económico Gestão

MACROGESTÃO. A recuperação da demanda no pós-pandemia está a correr a um ritmo acelerado que deixa para trás o ritmo da oferta ainda a tentar recompor-se dos estragos da pandemia.

Stocks mundiais de cabeça para baixo e preços inflacionados

Milhões de postos de trabalho obliterados, o colapso de cadeias de fornecimento, o fecho de indústrias e empresas, tudo obstáculos que a recuperação da oferta tenta ultrapassar a custo para dar resposta a um aumento da demanda generalizado. Um aumento de procura impulsionado pelos estímulos económicos e pelas poupanças durante as fases mais restritivas da pandemia.

Enquanto esses obstáculos à recuperação da oferta não forem ultrapassados, o mundo vai continuar a ver subidas de preços avisam os especialistas. Pode levar algum tempo a restituir a normalidade e em muitos casos a alta de preços veio para ficar.

Os desafios de gestão são enormes. Muitas fábricas mandaram trabalhadores para casa e agora levará tempo e negociações a recuperar. A restauração que titubeia sem empregados em países como os EUA e Reino Unido é exemplo de como o regresso ao trabalho poderá ser difícil e sujeito a novas exigências por parte dos trabalhadores, particularmente os que ficaram em casa e receberam algum subsídio e que agora o comparam ao salário que auferiam e concluem que é melhor ficar em casa.

Os mercados de transportação sofreram de tal maneira as disrupções que o trânsito de cargueiros ainda não se recompôs de despedimentos e falências, comprometendo ainda mais o funcionamento de indústrias que dependem de materiais, de peças e de bens importados por todo o mundo. O bloqueio do Canal do Suez foi um exemplo e amostra do caos que as disrupções de shipment podem causar em diferentes sectores.

Falta um pouco de tudo. Faltam microchips, falta queijo, galinha. O preço do combustível subiu, a indústria automóvel anda atrapalhada com falta e peças e este cocktail de preços altos levou a uma subida da inflação superior a 3.3% nos países mais desenvolvidos do mundo, reporta a CNN, na China a inflação da produção chegou a 9% no valor mais alto dos últimos 13 anos.

A aposta nos automóveis elétricos fez disparar a procura por cobre e alumínio, a Tesla subiu os preços dos seus modelos e Elon Musk, o seu presidente, culpou a inflação do preço dos materiais. A demanda por esteiras ‘made in China’ por exemplo que disparou e causou picos de preço com a falta de produção em massa foi particularmente afectada pela falta de contentores para transportação exemplificava o NYTimes no mês passado.

Inicialmente a recuperação da pandemia viu um aumento da procura de bens caseiros em detrimento por exemplo dos gastos em restauração com as pessoas a gastarem mais em melhoramentos da casa, em esteiras, em montar escritórios em vez de em restaurantes ou cinemas. Alguns desses aumentos de tendência serão para manter, como papel higiénico, fraldas, cereais. Gigantes mundiais como a Pampers, General Mills (que produz Cherios ou a Kimberly- Clark que produz papel higiénico já avisaram que os preços vao continuar a subir. A Nestlé e a Unilever já anunciaram que as subidas de preços dos seus variados produtos e subidas, vêm para ficar.

O preço da comida global subiu pelo 12º mês consecutivo e à taxa mais elevada dos últimos 10 anos de acordo com dados da FAO que indicam uma subida de preços de 40% em comparação com o mesmo período homólogo. Uma subida atribuída às diversas faltas, ao aumento da demanda, mas também a factores como a gripe suína em África, um aumento da stockagem da China e até a ataques informáticos que causaram o caos em produções de carne bovina e suína nos EUA e na Austrália.

Num mundo globalizado a pandemia assume contornos de caos que se estendem a todos os sectores produtivos e que vão obrigar a novas cadeias e novas lógicas de produção.

X