Do cafezinho à sopa, passando pelas luvas e por carpas

A 'gasosa' à volta do mundo

04 Aug. 2021 Emídio Fernando Gestão

Corrupção. Quando se pede uma 'gasosa' já se sabe do que se trata. É um angolano a sugerir um suborno. O termo domina os negócios ilícitos e tornou-se popular sobretudo para definir a pequena corrupção. Mas o uso de metáfora, nestes casos, não é um exclusivo angolano. 'Café quente', 'sopa', 'propina', 'taça de vinho', 'mordida', 'serra' são expressões para pagar 'luvas' ou pôr ‘debaixo da mesa'.

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Todos os anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulga números sobre a corrupção, concluindo que, em média, movimenta anualmente mais de um trilião de dólares só em 'gasosas'. O mesmo é dizer, dependendo do país ou da região, é usado um trilião de dólares para se pagar 'um café forte' ou ainda uma "taça de vinho" se o pagamento for feito em Paris.

Estes valores são relativos apenas à pequena corrupção – ou à 'gasosa' – porque, quando se trata da grande corrupção, aumenta o número de zeros: por ano, consome 2,6 triliões de dólares anuais, em média, o que representa mais de 5% do PIB (Produto Interno Bruto) de todo o mundo.

O fenómeno, sendo universal, exige uma linguagem própria, com gíria e expressões também próprias, para toda a gente se fazer entender sem usar a palavra "corrupção" ou "suborno". E essa língua própria varia de país para país e até difere do impacto social que causa.

Por exemplo, no Brasil, sempre rico na imaginação, os estudiosos da língua encontraram 56 significados, em todo o país, para a 'gasosa'. Entre elas, as populares camarilha, mensalão, marquetagem, gorjeta, cervejinha, cala-boca, propina, cafezinho. Aliás, o café, sem se saber muito bem porquê, é um dos favoritos na eleição da metáfora para a corrupção. Ao lado do chá, por influência do muito comércio em que estão que envolvidos a China e os países árabes em que o liquido extraído de folhas é altamente apreciado. Assim, pode-se pedir "dinheiro para o chá" no Afeganistão, Irão, Paquistão, China, Jordânia, Síria, Tunísia, Líbia e em todo o Norte de África. O Quénia acrescenta-lhe um "chá dos mais velhos" O "cafezinho" é popular no Brasil e, em Angola e em muitos países africanos, há ainda um "café forte". 

As bebidas parecem ser inspiradoras para se engolir melhor o pequeno suborno. Fazendo jus à sofisticação, os parisienses exigem "uma taça de vinho", enquanto na Costa do Marfim se fica por "uma pequena bebida".

O suborno, ou o pagamento por fora, é visto como um reforço na economia caseira. Daí o recurso à gíria gastronómica. Em Kinhasa, cobra-se "feijão para crianças", mas verdadeiramente popular é a "sopa" que se pede na Turquia, uma "chorba parasi", normalmente uma mistura que serve para curar uma bebedeira.

Além da sopa, os turcos recorrem muito ao... peixe. E de uma forma inusitada. "Peixe começa a feder pela cabeça" quer dizer "gasosa". Serve para descrever alta corrupção em que os turcos, nos últimos tempos, se tornaram verdadeiros especialistas. Na República Checa e na Eslováquia, o peixe entra no cardápio das expressões populares, por força de um escândalo no futebol que usou linguagem codificada. Mas não é um peixe qualquer. É uma pequena carpa.

Um escândalo de corrupção, em 2010, transformou, na Hungria, uma caixa de telemóvel Nokia no símbolo do suborno. Hoje, falar em "caixa da Nokia" significa pagamento extra. Tudo porque o líder de uma companhia de transportes foi apanhado a dar dinheiro, numa caixa da Nokia, ao presidente da câmara de Budapeste. Rivaliza hoje com a expressão "dinheiro oleoso".

Em Itália, uma 'tangente' é uma 'gasosa'. O favorecimento do governo a determinadas empresas privadas em contratos públicos resultou na expressão "tangenpoli", ou seja, cidade das 'gasosas'.  Também um caso de corrupção no Reino Unido universalizou a expressão 'cash for questions'. Deputados britânicos receberam dinheiro para fazer perguntas específicas. Um dos resultados foi ter enriquecido a definição de corrupção.

Os eufemismos europeus resultaram em "luvas", usadas em Portugal, "debaixo da mesa", preferida por franceses, suecos e ainda iranianos, "propinas" ou "dieta", na linguagem castelhana de Espanha. Já os 'irmãos' da Colômbia preferem "serrucho", enquanto os mexicanos optam pela 'mordida', termo usado há mais de 100 anos e introduzido pela polícia.

Numa outra realidade, o Azerbaijão usa o 'hurmat' (respeito) ou 'fazer um favor' que também é utilizado em muitos locais, como na China, que acrescenta um "pequeno símbolo de gratidão". Na Polónia, é corrente oferecer-se "pequenas coisas" a "conhecidos", enquanto os russos pedem para se "colocar um obrigado no bolso" ou ainda "na palma da mão".

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