A conta da Polícia e o conto dos Mosqueteiros

26 Aug. 2026 Suely de Melo Opinião

Se dúvidas havia de que vivemos no País das Maravilhas, esta semana foram completamente dissipadas. Contrariamente ao que propalam os antipatriotas e inimigos da paz e da estabilidade, não há no mundo polícia mais republicana do que a nossa.

A conta da Polícia e o  conto dos Mosqueteiros
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Se dúvidas havia de que vivemos no País das Maravilhas, esta semana foram completamente dissipadas. Contrariamente ao que propalam os antipatriotas e inimigos da paz e da estabilidade, não há no mundo polícia mais republicana do que a nossa. Nem na Cochinchina se encontrará uma força policial tão preocupada em garantir a ordem e a tranquilidade públicas como a Polícia Nacional de Angola. Bem, pelo menos, foi o que deu a entender o segundo comandante-geral, numa tentativa de calar o cacarejo do Galo Negro que, pelo visto, se recusa a esquecer o “mal-entendido” ocorrido no Uíge. Pelo que se pôde perceber, os maninhos querem aproveitar-se dos “tirinhos” disparados pela polícia e do mero detalhe de existirem feridos graves para atacar o seu arquirrival, ousando insinuar que a Polícia trabalha sob as ordens do partido no poder. Ora essa… Que absurdo!

Com esta conversa, obrigaram o homem a fazer contas. Segundo Orlando Bernardo, só nos últimos 12 meses a corporação assegurou 442 manifestações, das quais 14% registaram alterações da ordem pública que degeneraram em violência. Só faltou dizer que 380 dessas marchas pertenciam ao partido no poder e as restantes 60 aos ‘arruaceiros’ do Galo Negro. Porque, curiosamente, só nas manifestações do maioritário é que tudo corre às mil maravilhas. Não há um único sobressalto, nem a mínima necessidade de intervenção policial. Em vez de andarem às turras e em trocas de mimos talvez o MPLA devesse ensinar à UNITA como se organiza uma manifestação. Ou, no mínimo, como educar os seus militantes para que sejam todos ordeiros e bem-comportados, em vez de uns selvagens que só dão trabalho à nossa tão competente polícia. Mas desengane-se quem pensa que a polícia vai recuar. Ao “inimigo”, nem um palmo de terra! Orlando Bernardo já deixou o aviso: goste-se ou não, a PN vai continuar a recorrer à força para garantir a ordem e a tranquilidade públicas. E sobre essa «força», posso falar na primeira pessoa, porque a vi e vivi, ninguém me contou. Num fatídico dia de outubro de 2020, após tentarmos cobrir uma manifestação, pasmem, da UNITA que, só por acaso, acabou farta em rebuçados e chocolates, eu e os meus colegas tentávamos simplesmente regressar à redação. Sem como nem porquê, o nosso carro foi parado, no meio da estrada, quando fomos arrancados de lá como se fôssemos autênticos meliantes e depois de umas boas porretadas (nem pena da moça alheia tiveram) fomos encaminhados para uma esquadra qualquer. Mas claro, foi tudo em prol da ordem pública. Afinal de contas, jornalistas a caminho da redacção para relatar o que viram e ouviram representavam, sem dúvida, um perigo iminente.

Mas se para alguma coisa serviu o “mal-entendido” no Uige, foi para a união de alguns partidos. O RENOVA Angola, PNSA, PPA, PDP-ANA, PRS e o Bloco Democrático manifestaram apoio total à UNITA, condenaram a postura da PN e exigiram a sua responsabilização. Os líderes comprometeram-se a ter encontros regulares para o engrandecimento e consolidação de uma plataforma de trabalho em conjunto, adoptando o lema de Os Três Mosqueteiros “um por todos e todos por um”. Decidiram ainda criar um mecanismo de todos os partidos políticos para a resolução dos conflitos que surgirem antes, durante e depois das eleições gerais. Resta saber se estas declarações e a reciclagem da literatura clássica vão além da conferência de imprensa. Afinal estamos todos lembrados do espetáculo que foi a Frente Patriótica Unida, cujo compromisso parecia de longe mais robusto e estruturado. Se a FPU, com todo o seu peso institucional e apelo popular, tropeçou nas próprias ambições e deixou o eleitorado a ver navios, serão agora uns quantos discursos e a promessa de “encontros regulares” suficientes para assustar quem realmente manda?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 21 de Agosto de 2026