A conta da Polícia e o conto dos Mosqueteiros
Se dúvidas havia de que vivemos no País das Maravilhas, esta semana foram completamente dissipadas. Contrariamente ao que propalam os antipatriotas e inimigos da paz e da estabilidade, não há no mundo polícia mais republicana do que a nossa.
Se dúvidas havia de que vivemos no País das Maravilhas, esta semana foram completamente dissipadas. Contrariamente ao que propalam os antipatriotas e inimigos da paz e da estabilidade, não há no mundo polícia mais republicana do que a nossa. Nem na Cochinchina se encontrará uma força policial tão preocupada em garantir a ordem e a tranquilidade públicas como a Polícia Nacional de Angola. Bem, pelo menos, foi o que deu a entender o segundo comandante-geral, numa tentativa de calar o cacarejo do Galo Negro que, pelo visto, se recusa a esquecer o “mal-entendido” ocorrido no Uíge. Pelo que se pôde perceber, os maninhos querem aproveitar-se dos “tirinhos” disparados pela polícia e do mero detalhe de existirem feridos graves para atacar o seu arquirrival, ousando insinuar que a Polícia trabalha sob as ordens do partido no poder. Ora essa… Que absurdo!
Com esta conversa, obrigaram o homem a fazer contas. Segundo Orlando Bernardo, só nos últimos 12 meses a corporação assegurou 442 manifestações, das quais 14% registaram alterações da ordem pública que degeneraram em violência. Só faltou dizer que 380 dessas marchas pertenciam ao partido no poder e as restantes 60 aos ‘arruaceiros’ do Galo Negro. Porque, curiosamente, só nas manifestações do maioritário é que tudo corre às mil maravilhas. Não há um único sobressalto, nem a mínima necessidade de intervenção policial. Em vez de andarem às turras e em trocas de mimos talvez o MPLA devesse ensinar à UNITA como se organiza uma manifestação. Ou, no mínimo, como educar os seus militantes para que sejam todos ordeiros e bem-comportados, em vez de uns selvagens que só dão trabalho à nossa tão competente polícia. Mas desengane-se quem pensa que a polícia vai recuar. Ao “inimigo”, nem um palmo de terra! Orlando Bernardo já deixou o aviso: goste-se ou não, a PN vai continuar a recorrer à força para garantir a ordem e a tranquilidade públicas. E sobre essa «força», posso falar na primeira pessoa, porque a vi e vivi, ninguém me contou. Num fatídico dia de outubro de 2020, após tentarmos cobrir uma manifestação, pasmem, da UNITA que, só por acaso, acabou farta em rebuçados e chocolates, eu e os meus colegas tentávamos simplesmente regressar à redação. Sem como nem porquê, o nosso carro foi parado, no meio da estrada, quando fomos arrancados de lá como se fôssemos autênticos meliantes e depois de umas boas porretadas (nem pena da moça alheia tiveram) fomos encaminhados para uma esquadra qualquer. Mas claro, foi tudo em prol da ordem pública. Afinal de contas, jornalistas a caminho da redacção para relatar o que viram e ouviram representavam, sem dúvida, um perigo iminente.
Mas se para alguma coisa serviu o “mal-entendido” no Uige, foi para a união de alguns partidos. O RENOVA Angola, PNSA, PPA, PDP-ANA, PRS e o Bloco Democrático manifestaram apoio total à UNITA, condenaram a postura da PN e exigiram a sua responsabilização. Os líderes comprometeram-se a ter encontros regulares para o engrandecimento e consolidação de uma plataforma de trabalho em conjunto, adoptando o lema de Os Três Mosqueteiros “um por todos e todos por um”. Decidiram ainda criar um mecanismo de todos os partidos políticos para a resolução dos conflitos que surgirem antes, durante e depois das eleições gerais. Resta saber se estas declarações e a reciclagem da literatura clássica vão além da conferência de imprensa. Afinal estamos todos lembrados do espetáculo que foi a Frente Patriótica Unida, cujo compromisso parecia de longe mais robusto e estruturado. Se a FPU, com todo o seu peso institucional e apelo popular, tropeçou nas próprias ambições e deixou o eleitorado a ver navios, serão agora uns quantos discursos e a promessa de “encontros regulares” suficientes para assustar quem realmente manda?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 21 de Agosto de 2026




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