E agora pergunto eu...

26 Aug. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, num final de semana em que a actualidade mundial andou marcada pelas guerras que continuam e que certamente não continuariam se não existissem interesses económicos a impulsioná-las... se não houvesse sempre quem lucrasse com elas.

E agora pergunto eu...
Santos Samuesseca

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, num final de semana em que a actualidade mundial andou marcada pelas guerras que continuam e que certamente não continuariam se não existissem interesses económicos a impulsioná-las... se não houvesse sempre quem lucrasse com elas.

Na semana que passou a Ucrânia pediu ao homem mais rico do mundo, Elon Musk, (ou um deles de acordo com o flutuar das bolsas) ajuda com os seus satélites para atingir posições russas. A Organização das Nações Unidas (ONU) publicou um relatório sobre a guerra no Sudão que tem estimativas de mortos de até cerca de meio milhão de pessoas, sendo que perto de nove milhões são deslocados, 200 mil mais recentemente. O Irão comentou com o desdém jocoso com que já o tem feito, as declarações de Donald Trump, desta vez a ameaçar com um “Dia D”, um ‘Armagedon económico’, sempre naquele tom tão dado a hipérboles ameaçadoras e que desta feita se aplicam a todos os países que façam negócios com o Irão e que tenham de algum modo contribuído para a resiliência que o Irão tem demonstrado quanto às sanções americanas. Quem não está connosco está contra nós, e vai enfrentar “consequências tremendas” diz o presidente da nação mais poderosa do mundo. A China reagiu com um muchocho... e o Irão diz que Trump está a tentar economicamente o que falhou militarmente. É bom lembrar que Trump prometia que seria esta uma guerra rápida, mas a dita arrasta-se... assim como prometeu acabar instantaneamente com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, que simplesmente continuam a tornar evidente que uma humanidade viciada em guerras - estimam-se entre os 10 e 15 mil desde que há registos - parece encontrar sempre meios de conflito, talvez com mais talento do que meios de resolução. E encontra sempre meios de conflito porque há sempre quem ganhe com as guerras. Em cima de toda a destruição que causa a guerra, há sempre quem tire lucro, quer quem venda equipamento, quem se ocupe da reconstrução quando é privatizada, quem ganhe acesso a recursos minerais ou de outros tipos, que sejam rentáveis… enfim, há sempre quem beneficie da morte e da destruição. Uma só empresa de armas e equipamento militar americana lucrou cerca de 40 mil milhões de dólares em nove anos de guerra no Iraque que directa e indirectamente matou cerca de 400 mil pessoas. Só para pôr em perspectiva, o Orçamento Geral de Estado de Angola no ano passado não chegava a 30 mil milhões…

A propósito de Estado de Angola, ‘Armagedon económico’, é aquele que enfrentam muitos angolanos que sobrevivem às dificuldades diárias, que lutam para alimentar as suas famílias como podem, que vão para a zunga que vão para a luta diária do pão também diário e que pode não chegar para o dia seguinte e que são confrontados com novas ameaças todos os dias os que populam a economia informal e que sustentam tantas vezes e de tantas maneiras a economia dita formal. Ameaças muitas vezes vindas do Estado que devia agradecer ao informal por alimentar os angolanos que o Estado não consegue alimentar, ou educar ou sarar.

O jornal Valor Económico tem uma rubrica dedicada a estas pessoas e aos múltiplos e muitas vezes criativos meios com que conseguem alimentar crianças - é bom lembrar que o Estado falha até na merenda básica prometida – com que conseguem pagar colégios formação para e que são, no fundo, a maioria absoluta a economia informal continua a compor cerca de 80% da economia nacional. É daí que as pessoas que estão à margem dos contratos adjudicados pelo presidente e sua entourage vivem, e são aos milhões.

Nessa rubrica cabem as histórias mais comuns e incomuns de sobrevivência: como a dos os zungueiros que facturaram com a venda de cartões SIM da Africell quando a Unitel desfuncionou; como nos bairros a água é vendida e revendida; como se tratam dentes em praças, como se revendem peças de telemóveis avariados, como se vende transporte às costas quando chove, como se sobrevive de gelados e micates caseiros, como se fazem kixiquilas que salvam... como se sobrevive de uma economia paralela mas vibrante que resolve de facto a vida das pessoas. Bem diferente do que conseguiu a política, e que é tantas vezes é uma realidade desconhecida de quem governa, que passa ao lado das instituições económicas clássicas como a banca. Essa rubrica nasceu para aproximar essas duas esferas, contar histórias de formalização de negócios, para alertar do que está à margem.

Voltando ao ‘Armagedon económico’ - essa expressão ajustada - na semana que passou o VE nessa rubrica trazia as histórias de vendedores do Mercado dos Congolenses que foi encerrado pela administração local no final de junho e que tinha mais de 2000 vendedores registados que passaram a não ter poiso, a estar mais expostos à perseguição dos fiscais (que também eles vivem da em grande parte da atividade informal da extorsão sem entrarem para as estatísticas dos 80% de informalidade). Histórias de homens e mulheres que chegaram a facturar 300 mil kwanzas por semana, que permitiam pagar escolas, casas, construir em terrenos próprios, e que veem quebras de mais de 70% na facturação tendo as mesmas despesas essenciais como escola para os filhos para pagar. “Tenho uma filha na universidade a pagar 40 mil, outro também na universidade a pagar 15 mil mais transportes, mais outros dois no secundário, provavelmente vou ter de interromper os estudos deles” dizia um vendedor ao Valor Económico. Outra queixou-se ao VE de extorsão por parte dos fiscais ‘aos olhos de uma administração que finge que não vê’, muitos desistiram e tentam aprofundar a informalidade noutros negócios porque as barrigas para alimentar continuam a dar sinal  todos os dias sem observância de decretos.

A integração de alguns noutros mercados falhou porque ou são deslocados para zonas onde os clientes não vão, ou encontram outra concorrência, mas o que é facto é que são retirados às pessoas os meios de subsistência, no caso aos vendedores desses mercados que têm sido encerrados assim, sem alternativas estudadas e funcionais para que mantenham o rendimento.

stamos a aproximarmos de eleições o aumento da despesa já se começou a ver a partir do ano passado e mais provavelmente vai continuar, mas os planos para quem vai vender todos os dias para pagar escolas e merendas que o Estado devia providenciar e desconsegue, deviam ser prioridade antes do embelezamento de qualquer zona. Antes de materiais de campanha mais ou menos visíveis... mas é com esperança sempre querido leitor, que marcamos aqui encontro, até à próxima, na sua Rádio Essencial. 

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico