OS BANCOS JÁ ESCOLHERAM. E OS CLIENTES?
Há um dado que merece mais atenção do que os números apresentados nos balanços da banca. Dezanove instituições financeiras analisadas mantêm cerca de 8,2 biliões de kwanzas aplicados em títulos e valores mobiliários, um montante superior aos 7,2 biliões de kwanzas concedidos em crédito.
Há um dado que merece mais atenção do que os números apresentados nos balanços da banca. Dezanove instituições financeiras analisadas mantêm cerca de 8,2 biliões de kwanzas aplicados em títulos e valores mobiliários, um montante superior aos 7,2 biliões de kwanzas concedidos em crédito. A conclusão imediata é simples: quando têm liquidez disponível, os bancos também procuram oportunidades no mercado de capitais.
Esta realidade levanta uma outra questão. Havendo alternativas de investimento, faz sentido o cidadão continuar a manter a quase totalidade das suas poupanças em depósitos bancários, quando os próprios balanços mostram que as instituições financeiras atribuem um peso crescente aos títulos e valores mobiliários? A pergunta não significa que os depósitos tenham perdido utilidade, mas convida a reflectir sobre se os depositantes não estarão a desperdiçar oportunidades de diversificação e de melhor rentabilização das suas poupanças.
A débil cultura financeira pode explicar a situação. Durante décadas, os depósitos bancários foram praticamente a única forma de poupança acessível à maioria dos cidadãos. O banco era o destino natural do dinheiro, enquanto o mercado de capitais era visto como um espaço reservado ao Estado, às grandes empresas e aos investidores institucionais.
Entretanto, hoje o cenário é diferente. Existe uma bolsa de valores, há um mercado secundário de dívida pública, são emitidas obrigações corporativas e existem sociedades corretoras autorizadas para intermediar investimentos. Em teoria, qualquer cidadão pode adquirir títulos do Tesouro ou outros instrumentos financeiros, desde que possua uma conta de custódia e compreenda os riscos inerentes ao investimento.
Esta realidade levanta uma outra questão. Havendo outras opções, faz sentido o cidadão continuar a deixar o seu dinheiro no banco, quando a realidade mostra que este está mais preocupado em investir em valores mobiliários e menos em crédito aos depositantes e, consequentemente, à economia?
Os números mostram que a maioria dos angolanos desconhece a possibilidade de investir em títulos e ou acções. Existem apenas cerca de 56 mil contas de custódia, um número reduzido para um sistema bancário que reúne milhões de contas de depósito. A esmagadora maioria dos clientes continua a concentrar as suas poupanças em contas à ordem ou em depósitos a prazo, muitas vezes remunerados a taxas que pouco protegem o poder de compra perante a inflação.
O mais curioso é que os próprios bancos parecem acreditar cada vez mais no potencial do mercado de capitais. Nos últimos anos, várias instituições bancárias criaram sociedades corretoras, reforçaram as suas áreas de investimento e passaram a oferecer serviços de intermediação financeira aos clientes. O movimento demonstra que o sector reconhece o crescimento deste mercado e procura posicionar-se para acompanhar essa evolução. Ao mesmo tempo, surgiram relatos de clientes que enfrentaram dificuldades na transferência das suas contas de custódia entre intermediários financeiros, um sinal de que a concorrência por este segmento tende a intensificar-se à medida que aumenta o interesse pelos investimentos mobiliários.
Ainda que cada caso tenha as suas particularidades, a situação mostra que a concorrência neste segmento começa a ganhar importância e que a mobilidade dos investidores deverá tornar-se um tema cada vez mais relevante.
Perante os números dos bancos, talvez tenha chegado o momento de os clientes bancários se questionarem se não devem explorar, também eles, as oportunidades oferecidas pelo mercado de capitais, em vez de concentrarem toda a sua poupança em depósitos bancários.








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