O Palácio de milhões na Luanda da fome
Que mania irritante da História de se repetir. Mudam-se os séculos, as línguas e os trajes, mas o guião insiste em ser replicado.
Que mania irritante da História de se repetir. Mudam-se os séculos, as línguas e os trajes, mas o guião insiste em ser replicado. Quando Keops, o segundo faraó da Quarta Dinastia do Antigo Egipto, mobilizou centenas de milhares de camponeses para mover blocos de calcário, imagino eu que o gabinete de comunicação do Reino Antigo tenha explicado como a Grande Pirâmide seria um divisor de águas para a projecção geopolítica de Gizé. Centenas de anos mais tarde, em Roma, Nero terá olhado para as cinzas do Grande Incêndio e intuiu que a solução para a dor do povo era erguer a Domus Aurea, um pomposo palácio construído com mármore, marfim, ouro e pedras preciosas. Mais a Oriente, Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China, estourou o tesouro e as costas da população com a construção de muralhas e a criação de mais de 8 mil estátuas de soldados em tamanho real, para proteger a sua tumba na vida após a morte. Avancemos dois milénios até à margem do Atlântico. Em Luanda, o nosso mestre-de-obras revela-se um herdeiro dessa escola clássica do betão armado. A sua visão de governação não se mede em cadernos escolares distribuídos ou em canalizações funcionais, mas em toneladas de cimento. Esta semana, vivemos mais um momento apoteótico. A inauguração do Palácio de Convenções de Luanda. Trata-se de uma aparatosa obra orçada em meros 300 milhões de dólares. A infraestrutura seria uma vitória ou um prestígio, seja lá como a queiram chamar, não fosse o insólito detalhe de que, há escassos meses, o país já havia estendido o tapete vermelho para inaugurar uma catedral do debate com características semelhantes. A lógica deve ser, por que ter apenas um grande centro de eventos quando se podem ter dois, não é mesmo? Se um palácio atrai investidores, dois palácios provocarão, certamente, um engarrafamento de engravatados a tentar aterrar no novo e reluzente Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto. Agora somos obrigados a levar com as promessas de captação de divisas, fomento do turismo de negócios, criação de postos de trabalho e afins. A maka é que do lado de fora, o país real já não se contenta com tantas promessas. Enquanto cortavam a fita vermelha de mais de 300 milhões de dólares, milhares de crianças continuavam a sentar-se no chão, sobre tijolos ou em latas a tentar aprender a ler sem livros, sem carteiras e sem tecto. Pelo menos aquelas que não fazem parte das estatísticas dos milhões que em mais um ano lectivo, prestes a arrancar, vão ficar fora do sistema de ensino. A água potável e o saneamento básico continuam uma miragem e os hospitais, embora ostentem fachadas novas em folha, debatem-se diariamente com a falta de tudo. Cá fora a "cimeira da fome" realiza-se todos os dias, porque os nossos míseros kwanzas já não compram o básico. Mas não sejamos ingratos. Se os chineses têm a muralha gigantesca para admirar, os italianos têm o palácio de Nero, os egípcios têm a pirâmides de Gizé, nós podemos não ter escola, saneamento ou comida na mesa, mas podemos orgulhar-nos de viver no único país da região onde os diplomatas internacionais podem escolher em qual dos dois palácios milionários preferem tomar o seu café, enquanto fingem que discutem assuntos importantes que não vão mudar a vida de ninguém. E os primeiros a inaugurar serão os chefes de Estado e de Governo da união africana. Muitos deles são o verdadeiro problema dos seus países, mas vêm cá discutir a resolução dos conflitos em África. E assim ouviremos muitos presidentes com o prazo de validade democrática há muito caducado a discursarem sobre "estabilidade" e "soluções africanas para problemas africanos", sem que nenhum deles tenha coragem de apontar o dedo à ferida. Mas no fim do dia a pergunta que não me sai da cabeça é: as escolas, a água potável, a luz elétrica e o saneamento básico vão finalmente ser instalados no país antes do terceiro palácio, ou é pedir demasiado?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 28 de Agosto de 2026




DOIS PALÁCIOS E AS PRIORIDADES DE ANGOLA