Poyais visto como um paraíso

O país que nunca existiu e foi vendido

04 Nov. 2021 Emídio Fernando Gestão

Negócio. Já ouviu falar na maravilhosa terra de Poyais, na América do Sul? Se não, seja bem-vindo ao mundo de um arrojado empreendedorismo. Visionário escocês, MacGregor criou um país maravilhoso e rico, mas apenas no papel. Foi um golpe de mestre que envolveu técnicas de marketing, estratégias comerciais e uma ideia única de inovação.

O país que nunca existiu e foi vendido

O Ponto de partida foi a ideia de vender um grande pedaço de terra, cheio de palmeiras, sol, calor, rico em ouro e prata, com água abundante e que até dava três safras de milho por ano. Só que este paraíso nunca existiu. O vendedor era um jovem empreendedor, com apenas 23 anos. Chamava-se Gregor MacGregor e entrou para a História como um dos seus maiores vigaristas.

O negócio iniciou-se com uma campanha bem elaborada. O Território de Poyais, algures perto das Honduras, na América do Sul, serviu para MacGregor se apresentar à elite política e empresarial, como um herdeiro de um principado. Escreveu um livro, que ele próprio custeou, com mais de 300 páginas, descrevendo um território ao qual chamou ‘ Esboço da Costa do Mosquito, Incluindo o Território de Poyais’. Assinou com o pseudónimo de Thomas Strangeways, dando ideia de que teria sido escrito por alguém que conhecia bem essas terras maravilhosas e estranhas. 

Criou um esquema de vendas de certificados, idêntico às acções usadas hoje em dia nas Bolsas. Logo a seguir, montou uma campanha de vendas. Recompensou jornalistas para o entrevistarem, contratou publicitários que elaboraram anúncios e até pagou para criar músicas. Nas entrevistas, assumiu-se como um “visionário de grande coragem, ousadia e inteligência”. Aliou o adjectivo “bravo”, ajudado por uma carreira militar que, de facto, tinha. No entanto, essa carreira foi adornada com títulos que ele próprio inventou: usava um distintivo de ter sido condecorado pelo Reino de Portugal. Pelo meio, auto intitulava-se de Sir Gregor MacGregor Bart, justificando com umas alegadas ligações com o Clã Gregor, que ele definia como “descendente da antiga família real celta”. Acrescentava ser parente de duques, condes e barões. Tudo, portanto, famílias reais. 

A realidade era bem diferente. MacGregor nasceu, de facto, na Escócia, em 1786, mas filho de emigrantes. Combateu na Venezuela, contra os espanhóis. Já tinha combatido nas guerras napoleónicas, lutou pela independência na América do Sul, alcançou o posto de general de brigada no exército revolucionário do mítico Simão Bolívar e transformou-se num herói. 

Com o fim da guerra, voltou para a Europa, mas para Londres, acolhido pela mãe. Aqui, criou um arrojado plano para colonizar uma área da Costa do Mosquito, a que ele chamou Poyais. Apresentava-se como ‘príncipe das terras férteis de Poyais’ e exibia o título de ‘cacique. Com a esposa, a ‘princesa Josefa de Poyais’, montou um plano que entra também a história do empreendedorismo. 

O currículo ajudou-o. Aparentemente, foi fácil para o jovem MacGregor convencer muita gente a investir. Em 1822, começou a anunciar as proezas do seu principado: rendia três safras de milho, tinha água em abundância, um rio em que a água competia com o ouro, sol, mar, animais de caça e árvores que davam frutas em fartura. 

Ficou assim montado um país, na imaginação de MacGregor, mas também na dos investidores ansiosos por aplicar o dinheiro. Os investimentos eram atractivos e as maravilhas do novo país também. 

Como bom investidor, lembrava que o fim da guerra com Espanha trazia largas oportunidades de comércio e que se poderia ainda desenvolver com a construção, para breve, de um canal que iria transportar mercadorias. 

Poyais começou a emitir títulos a 30 anos, com uma taxa de juro 

à volta dos 3%. O capital a aplicar, para cada investidor, era de 200 mil libras, uma verdadeira fortuna para a época. Além disso, vendeu lotes de terreno a 11 libras por hectare.

MacGregor optou, primeiro, por seduzir os seus patrícios, escoceses, transformando-os em colonos. Na lista de investidores, entrava a elite britânica: médicos, advogados, fazendeiros, comerciantes e um banqueiro. O negócio correu tão bem que, logo na primeira e única viagem, sete navios foram carregados de colonos e até transportaram um futuro director do Teatro Nacional, que MacGregor contratou. O caso não era para menos. A campanha de vendas descrevia a capital de Poyais, San José, como uma cidade com avenidas largas, edifícios com colunas gregas e romanas, bancos, uma catedral e ópera. 

O novo mundo estava tão bem montado que os colonos trocaram ouro e divisas locais por dólares de Poyais, em notas criadas pelo próprio MacGregor.

Na chegada, foi a decepção. Afinal, o país não existia. A dura viagem e as condições encontradas, apenas mar, levaram à morte de dezenas de colonos, vítimas de doenças e fome. Sobreviveram 50 que conseguiram regressar à Grã-Bretanha, depois de terem vivido em condições miseráveis no porto das Honduras Britânicas.

 Já rico, MacGregor mudou-se para Paris, onde tentou dar um golpe semelhante. Mas deu-se mal. A justiça francesa acusou-o de fraude. Foi preso, mas conseguiu ser libertado depois de oito meses en prisão preventiva. Regressou à Venezuela em 1839, recebeu uma pensão de oficial e morreu em Caracas em 1845. Ainda hoje, é reconhecido como herói e tem o nome gravado no Monumento dos Libertadores.

X