Como a Índia pode vencer a corrida da vacinação

03 Mar. 2021 Opinião

A medida que o mundo entra no segundo ano da pandemia do coronavírus, a vacinação ocupou o lugar de destaque nas respostas dos decisores políticos. Mas apesar de as vacinas oferecerem o modo mais seguro para acabar com a crise, os países encaram-nas de formas diferentes. Alguns começaram uma corrida para vacinar as suas populações, enquanto outros aguardam dados sobre a sua eficácia a longo prazo antes de começarem. Outros ainda se encontram numa longa fila para receber ou comprar doses desesperadamente necessárias.

Muitos notaram o rápido ritmo da campanha de vacinação em Israel, a ambição do Reino Unido, o primeiro país a aprovar uma vacina contra a covid-19 para uso de emergência e os tropeções na distribuição de fornecimentos nos EUA e na União Europeia. Mas para quem procura lições sobre como proteger uma população através da vacinação, há outro país a ter em atenção: a Índia.

Com 1300 milhões de pessoas, e uns estimados 11 milhões de casos de covid-19 até à data, a Índia enfrenta um desafio de vacinação aparentemente gigantesco. Mas o governo anunciou recentemente um plano para vacinar cerca de 300 milhões de pessoas até ao início de Agosto. E, a julgar pelas preparações e acções do país até agora, poderá estar bem preparado para cumprir a tarefa.

Isso acontece porque a Índia consegue enfrentar os desafios da escala com uma enorme capacidade produtiva, uma infra-estrutura de saúde pública robusta com experiência na distribuição de vacinas, um exército de funcionários de primeira linha e um planeamento meticuloso. Adicione-se a isso um rastreio digital inovador e os resultados poderão colocar o país numa posição invejável nos próximos meses.

Os trabalhadores de saúde de primeira linha são intervenientes centrais na implementação da vacinação na Índia, e são os primeiros a ser inoculados. A campanha para a vacinação de cerca de 30 milhões de profissionais de saúde e de outros trabalhadores de primeira linha começou a 16 de Janeiro, e nos primeiros 34 dias a Índia alcançou o marco de 10 milhões de vacinações. Os EUA demoraram 31 dias para vacinar o mesmo número depois de terem autorizado as vacinas (a taxa da distribuição de vacinas na China ainda é incerta).

Depois de vacinados os profissionais de saúde, os trabalhadores de primeira linha e as pessoas com mais de 50 anos (e os jovens com problemas graves de saúde) serão os próximos. São mais 260 milhões de pessoas que o governo planeia vacinar em menos de sete meses.

A Índia tem capacidade de produzir internamente todas as suas vacinas contra a covid-19. O Instituto Serológico da Índia, o maior produtor mundial de vacinas, reforçou a sua capacidade para produzir mil milhões de doses da vacina AstraZeneca-Oxford (conhecida localmente como Covishield), enquanto a Bharat Biotech vai produzir a vacina Covaxin, apoiada pelo governo. Isto deverá ser suficiente para vacinar os grupos prioritários do país ainda este ano. E, como os preços das vacinas produzidas nacionalmente são dos mais baixos em todo o mundo, a Índia já forneceu vacinas no valor de 47 milhões de dólares a 13 países.

A Índia dependerá grandemente da sua infra-estrutura de saúde pública para alargar a sua campanha de vacinação. Foram criados três mil centros de vacinação contra a covid-19 por todo o país, juntamente com 27.000 pontos de cadeia de frio para manter os fornecimentos à temperatura necessária durante o transporte e nos locais a que se destinam. Cerca de 150.000 funcionários em 700 distritos receberam formação específica para administrar as vacinas.

A Índia já gere os maiores programas de imunização pública do mundo, direccionados todos os anos para 27 milhões de crianças e 29 milhões de grávidas. Desde que se iniciou uma campanha nacional para a vacinação infantil contra o sarampo e a rubéola, há quatro anos, vários Estados alcançaram taxas de cobertura superiores a 90%. O esforço de vacinação contra a covid-19 será certamente ambicioso, mas a sua escala não é muito diferente.

Como alguns países (incluindo os EUA) já concluíram, os sistemas governamentais com vários níveis podem prejudicar a rapidez da distribuição de vacinas se não houver uma transmissão adequada de informações, se não houver clareza quanto à autoridade para tomar decisões nos vários níveis e se a responsabilização for difusa. A Índia abordou esta questão de forma pró-activa, ao planear a distribuição das vacinas contra a covid-19 com a implementação de uma estrutura de governação bem definida entre os governo central, estadual e distrital e os blocos administrativos locais. As funções e responsabilidades para cada nível foram claramente definidas, permitindo uma resposta coordenada a nível nacional.

Adicionalmente, a Índia está a usar a tecnologia para melhorar a monitorização e a responsabilização. Em tempo recorde, as autoridades criaram o sistema dedicado Co-WIN para monitorização da aquisição e distribuição das reservas de vacinas e para permitir que as pessoas se pré-inscrevessem na vacinação. O Co-WIN baseia-se no Aadhaar, o sistema nacional de identificação digital do país. Do lado da oferta, utiliza o e-VIN, o sistema de informação nacional para a vacinação. A sua aproximação tem sido instrumental para fazer com que o sistema funcione e as falhas iniciais foram rapidamente resolvidas. Os cidadãos podem receber uma mensagem de texto que os informa quando e onde podem ser vacinados e receberão um certificado com um código QR depois de terem recebido a segunda dose.

Embora as perspectivas sejam positivas, a Índia ainda tem de vencer barreiras significativas. A elaboração de uma base de dados abrangente e fiável de pessoas com co-morbilidades, para que sejam consideradas prioritárias para a vacinação, continua a representar um enorme desafio.

E, tal como em outros países, existem níveis preocupantes de hesitação relativamente à vacina. Os impressionantes números da imunização contra a covid-19 na Índia nas primeiras semanas poderiam ter sido ainda mais elevados, mas houve pessoal médico que demonstrou relutância em ser vacinado, especialmente porque o Covaxin, de desenvolvimento local, recebeu uma autorização de emergência antes de todos os dados de teste sobre a sua eficácia terem sido analisados. O governo precisará de campanhas de comunicação adequadas para persuadir as pessoas idosas e com problemas de saúde de que as vacinas são seguras.

A experiência da Índia comporta pelo menos três lições para os outros países. Primeiro, estes deveriam aproveitar ao máximo os seus pontos fortes. Nem todos os países conseguem desenvolver ou fabricar as suas próprias vacinas. Mas quase todos podem aproveitar trabalhadores de primeira linha empenhados, infra-estruturas de saúde pública ou experiências anteriores de combate a epidemias ou de organização de campanhas de imunização.

Segundo, a priorização do acesso às vacinas e a monitorização da sua distribuição devem ser incluídas no esforço de vacinação logo desde o início. Uma análise mais profunda dos dados para uma distribuição mais eficaz das vacinas pode obrigar ao desenvolvimento de sistemas já existentes, ou à utilização de novas ferramentas, como o Planificador de Distribuição de Vacinas para os EUA, e o Índice de Cobertura Vacinal, que sublinha as geografias que possam vir a ter problemas para alcançar níveis elevados de cobertura da vacinação contra a covid-19 e as razões para esses problemas.

Finalmente, a hesitação relativa às vacinas obriga a uma resposta personalizada em cada país. Os legisladores e os especialistas em saúde pública têm de conceber estratégias eficazes para garantir às pessoas que a vacinação é segura, e que é o único caminho para sair da pandemia e chegarmos à retoma.

Prashant Yadav, professor associado na Escola Médica de Harvard e membro sénior do Centro de Desenvolvimento Global (coautor)

Sema  Sgaier

Sema Sgaier

Professora assistente de Saúde Pública na Universidade de Harvard
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