E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, no final de uma semana em que a actualidade foi marcada pela avalanche que agora se sabe ter nascido do desmembramento de um icebergue que varreu os vales entre Tibete e Nepal e levou tudo o que apanhou pelo caminho.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, no final de uma semana em que a actualidade foi marcada pela avalanche que agora se sabe ter nascido do desmembramento de um icebergue que varreu os vales entre Tibete e Nepal e levou tudo o que apanhou pelo caminho. As imagens são perfeitamente aterradoras. A natureza, quando se lembra de demonstrar aos homens a sua pequenez, fá-lo com requintes de malvadez. Os desaparecidos e os mortos estão ainda por contabilizar e os estragos estruturais e para a economia são imensuráveis, particularmente sendo que pelo menos cerca de 500 mortos são turistas.
E quando acontece algum desastre natural de escala é inevitável questionar "e se fosse connosco?" Que resposta emergencial teriam as autoridades capacidade de oferecer? Os serviços de emergência, os bombeiros que vemos sempre por aí a sofrer para apagar pequenos fogos sem mangueiras sem equipamento sem água... É inevitável pensar no quão cheios de sorte temos sido de não nos chegar nenhum desastre natural... Em compensação, a governação que temos só não pode ser chamada de desastre natural porque de natural terá muito pouco...
As imagens do Uíge que correram mundo, de cidadãos desarmados a correr aterrorizados em fuga de polícias armados a tiro com aquela atitude abjecta para qualquer polícia republicana, e a que assistimos depois em Cazombo e também há cerca de um ano, quando a polícia matou entre 30 e uma centena de angolanos. Tudo com total impunidade. Sempre sem a reprimenda devida de quem manda e, por isso, com o seu consentimento, a governação pode não ser natural como o desastre no Tibete mas que é desastrosa, é ... A meses de eleições ter uma reunião da oposição corrida a tiro é um mau presságio sobre o que se vai passar até lá.
Mas a propósito de quem manda, o chefe andou ocupado com os temas sobre os quais lhe interessa falar mais do que a violência do Estado contra os seus cidadãos andou ocupado com cortar fitas às suas salas de convenções, que quem ouve os discursos oficiais em torno do tema, pensa que vêm todas as reuniões do mundo para Angola porque temos aeroporto e centros de conferências novos, e que essas reuniões vão fazer a diferença para governados... Continuamos a querer parecer muito mais do que queremos ser.
O comentário mais ajustado que li acerca do tema, do jornalista Ramiro Aleixo, publicado no site de notícias Kesongo, que se recomenta, fazia uma pergunta revelante no texto intitulado inauguração do mamarracho da chicala” e porque este é um espaço mais de perguntas do que de respostas, passo a citar o jornalista: “Com tantas prioridades que o pais tem, com tantas crianças fora do sistema de ensino, com tanta miséria, com tanto lixo pelos bairros e acessos péssimos, com falta de água e luz, com falta de medicamentos, com tanta gente comendo nos contentores de lixo e morrendo de malária; com tantos espaços de que Luanda dispõe, um dos quais inaugurado recentemente e também afecto à Presidência da República, sua Excia. dono do país e seus auxiliares propagam aos quatro cantos do mundo, que a obra integra-se na estratégia de captação de turismo de eventos. Mas que turismo se até ao momento todos os grandes eventos realizados pelo governo de Sua Excelência, dono do país, foram quase que integralmente pagos por Angola? Pergunta Ramiro Aleixo que ainda questiona: “alguém acredita que sua Excia, dono do país, nasceu num bairro pobre que, decorridos 50 anos de independência, no centro do Lobito, continua a não ter água, não ter luz; que, a cada chuva, vê as suas vias ficarem intransitáveis; onde crianças e adultos não têm escolas, vivem em casebre e morrem de malária? Perguntas interessantes...
A vontade de cortar a fita era tal que algumas das salas do “mamarracho” nem estão concluídas, mas na opinião do chefe “a infraestrutura já estava a fazer falta para um país como Angola” que tem atraído eventos importantes... E o presidente parecia particularmente orgulhoso da sala de três mil lugares... Mas na ocasião o chefe disse que a nova infraestrutura não é suficiente e apelou ao sector privado - o mesmo que a sua AGT fustiga com impostos e multas e suspenções de primeiro mundo - “É momento de começarem a investir seriamente na hotelaria”, afirmou, dizendo que a cidade que envolve o seu centro precisa de muito mais hotéis. Mas e agora pergunto eu, as unidades hoteleiras da capital sequer atingem metade da sua ocupação? Segundo números online a acupação global nas principais cidades não chega a 40% e o turismo que de facto alimenta economias é o turismo que gasta em hotel, mas gasta em serviços passeia, visita atracções turísticas, usa transportes locais vai aos restaurantes compra souvenirs. O turista das conferências entra e sai do país tratando-o como a tal placa giratória que estava a virar canção governativa (como se soasse bem), quase como o Messi entrou e saiu, vem geralmente com tudo pago dorme no hotel indicado e sai o mais rapidamente possível... Pode ser que pelo menos assim evite ver crianças à volta dos contentores do lixo atrás dos hotéis de luxo; que assim não veja as vendedoras a fugir de fiscais com bacias na cabeça e bebés queimados pelo sol nas costas, que não vejam aglomerados de pessoas a dormir ao relento ao redor dos hospitais porque sabem que as unidades onde deixaram os seus entes queridos não têm luvas, seringas, medicamentos... falta de tudo. Talvez a estratégia e a eleição do turista de conferências, que passa o dia fechado nas salas bonitas com AC até tenha sido estratégica... Mas é com esperança sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro até à próxima, e na sua Rádio Essencial.




DOIS PALÁCIOS E AS PRIORIDADES DE ANGOLA