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Amaro Francisco, director nacional de estruturação e desenvolvimento turístico

“O turismo depende muito do elemento diferenciador”

28 Jan. 2020 Grande Entrevista

Apresenta o aviturismo como uma das ‘alavancas’ para impulsionar o turismo. Sendo que o país tem 15 espécies endémicas, Amaro Francisco espera que este sector que movimenta cerca de três milhões de pessoas por dia chegue a Angola que “precisa apenas de criar condições na recepção e fronteira”. Sobre os pólos de desenvolvimento turístico, aponta que a ‘estagnação’ tem que ver com da falta de planeamento.

“O turismo depende muito do elemento diferenciador”

Que balanço pode apresentar sobre  o sector?

Podemos realçar que, no âmbito do planeamento turístico que deve ser feito, orientamos as direcções provinciais, através dos senhores governadores, sobre a necessidade de elaboração de planos directores municipais e provinciais. Também orientámos sobre a necessidade de haver uma actualização do cadastro dos recursos turísticos, uma vez que o Ministério do Turismo tem uma base do inventário dos recursos pelo país e nós distribuímos essa base por cada província e solicitamos que estas façam a respectiva actualização por ser um trabalho que essencialmente deve envolver órgãos locais.

Por exemplo...

Refiro-me ao Instituto Geodésico e Cadastro de Angola (IGCA) e ao Instituto do Ordenamento do Território (Inoto), que são órgãos especializados em matéria de recolha e levantamento de dados. Por outro lado, também devemos destacar que, no ano passado, assinámos um memorando de entendimento com a empresa espanhola PLV na componente do projecto ‘Apostar no aviturismo’, uma vez que é inegável que o país detém vários recursos a nível dos rios, das quedas de água, das paisagens, da fauna, da flora, da cultura, mas, neste momento, a nossa atenção deve estar focada numa oferta diferenciada. Identificamos como um grande elemento de diferenciação aquilo que a natureza nos oferece.

Ou seja, o aviturismo?

Sim, porque temos 15 espécies de aves endémicas que só existem em Angola e devemos focar-nos neste pormenor, para incentivarmos a prática do ecoturismo e relançarmos a procura turística nacional e internacional. Outro elemento a que também devemos dar destaque tem que ver com o Prodefatur - Programa de Desenvolvimento e Fomento de Aldeias Turísticas Rurais, aprovado no ano passado pelo Ministério, em função da sua componente social, sendo que há de ter um impacto grande ao nível das comunidades.

Como?

Angola possui, em termos de população, uma maioria camponesa e tem uma componente cultural e histórica forte e diversificada. Então, o Ministério entendeu potenciar essa componente da nossa população e fazer um estudo e programas que possam identificar que aldeias podem agregar uma oferta turística no meio rural.

Há exemplos bem sucedidos?

Há! Na Namíbia, há oferta turística virada ao meio rural, onde os turistas pernoitam num tipo de alojamento típico, em que convivem com as comunidades e exercitam o seu dia-a-dia. Por isso é que entendemos que o programa pode vir resgatar elementos da cultura das comunidades, uma vez que incorpora actividades como agricultura, agropecuária, o artesanato e faz com que as comunidades possam ir à rebusca de elementos como a dança e história adormecidas.

O Estado deve só traçar políticas?

Identificamos um parceiro, a Adra, uma ONG especializada na relação com as comunidades. Queremos que os programas, tanto o Prodefactur como o Aviturismo, tenham uma componente de participação muito forte. E não será o Ministério a identificar as aldeias turísticas, mas sim as próprias aldeias. Neste momento, o Ministério identificou duas localidades piloto, no caso, Dombe Grande (Benguela) e Cadá (Kwanza-Sul), mas cada uma delas é composta por muitas aldeias e não serão todas a fazer parte do programa. Iremos, junto da comunidade, apresentar os elementos de elegibilidade para fazerem parte do programa.

E os pólos de desenvolvimento turístico ficaram só no papel?

Acompanhamos os três pólos de desenvolvimento turístico definidos, ou seja, do Cabo Ledo, Calandula e da Bacia de Okavango. Temos a responsabilidade de acompanhar o exercício dos gestores dessas áreas. O ano passado foram aprovados os planos directores dos polós de Cabo Ledo e de Okavango.

Mas não há avanços…

Interessa referir que os pólos foram em parte vítimas do contexto que o país vive. Por outro lado, há uma ferramenta que não se usou muito em tempos anteriores. Foi ignorada. Ou seja, não se teve em conta o planeamento. Qualquer espaço territorial, para se desenvolver de forma harmoniosa e equilibrada, deve beneficiar do planeamento, e, no caso do nosso sector, do planeamento turístico. Como disse, os planos directores dos dois pólos só no ano passado foram aprovados, embora tenham sido criados há muito tempo. Os planos directores depois resultam em diplomas legais que dão suporte ao órgão de gestão do espaço para apresentar a potenciais investidores. Portanto, essa é uma variante que impediu um maior exercício prático dos pólos, sem descurar a componente financeira.

Há mais segurança nestes polos em relação às áreas (des)minadas?

Em qualquer área de intervenção de um país como o nosso, que viveu um longo período de guerra, é sempre bom para o investidor que nós tenhamos certificação de área desminada em relação às áreas de intervenção.  Em relação aos três pólos há certificação parcial das superfícies já desminadas, mas o processo continua. Temos de completar a certificação.

Os investidores também recuam por falta de infra-estruturas, como energia e água…

A perspectiva imediata é mesmo da infra-estruturação dessas áreas. Há uma orientação do Titular do Poder Executivo que abrange também os parques do Iona e da Quiçama. Tanto é que existe uma comissão criada que contempla vários departamentos ministeriais que deve responder por esse trabalho.

Os preços também impactam no desenvolvimento do sector?

Nós, enquanto turistas e utilizadores dos serviços, reclamamos muito do valor que é usado nos nossos empreendimentos turísticos.

São elevados, não?

Sim! Mas muitas vezes esquecemos que há uma série de factores que contribuem para isso, desde a falta de produção interna, e ausência de infra-estruturas básicas.

Qualquer empreendimento turístico, desde que receba um cliente ou hóspede, deve ter fornecimento de água, energia eléctrica e comunicações 24 horas ao dia. Se não temos uma oferta pública desses serviços, o operador obriga-se a encontrar fontes alternativas para que isso aconteça. Contrariamente a alguns países onde a energia e a água são fornecidas ininterruptamente e não recorrem a fontes alternativas, em Angola qualquer empreendimento deve ter pelo menos dois reservatórios de água, porque não há garantias do fornecimento do serviço público. O mesmo acontece com a energia, ou seja, dois grupos geradores para que, enquanto um estiver em manutenção, outro esteja a funcionar. Logo, esta carência que temos reflecte-se também na atracção do investidor.

Que soluções?

Há preocupação por parte do Executivo em colmatar-se essa lacuna. Assim, a nível de Calandula, a energia já chegou ao município e pretende-se que, até Março, atinja a área de intervenção do pólo de Calandula. Quanto a Cabo Ledo e a Bacia de Okavango, o ano passado, a comissão multissectorial de infra-estruturação fez um levantamento para apresentar as formas de ultrapassar a carência.

Pode dizer-se que há mais condições de afugentar do que atrair turistas e potenciais investidores?

Não, porque o aviturismo é uma componente do turismo que, nessa matéria, é muito menos exigente do que o turismo convencional. Os utilizadores do aviturismo são pessoas preparadas para encontrar condições razoáveis de alojamento, recepção e alimentação. Logo, um bom parque de campismo pode facilmente albergar essa procura.

Mas não requer investimento?

Não requer muito dinheiro. Tanto é assim que o Ministério também já orientou aos governos provinciais para que identifiquem áreas específicas para a implantação de parques de campismo. A esse nível aconselhamos que cada município tenha uma área que permita que, através da parceria público-privada, possamos instalar os parques.

A oferta turística passa muito pelo elemento diferenciador. Temos muitas quedas bonitas e a que mais se destaca é Calandula mas, ao lado, temos as de Victoria Falls, no Zimbabwe. Até conseguirmos atrair o fluxo de turistas para o nosso país, teremos de fazer um grande exercício. Temos uma costa muito extensa de praias bonitas, mas, nos outros países, há outras já melhor trabalhadas e com mercado próprio. Porém, os 15 pássaros endémicos só os temos em Angola.

“O turismo depende muito do elemento diferenciador”

Está confiante?

O mundo do aviturismo movimenta milhões de pessoas. Todos os dias, três milhões de pessoas competem à busca de um pássaro endêmico novo. Quer dizer que esta procura, daqui a mais algum tempo, pode começar a caminhar para Angola que tem estas 15 espécies endêmicas. Então é necessário que o país crie condições a nível da recepção, melhorando a componente fronteira. Estou a referir-me essencialmente ao homem que trata de receber as pessoas.

É preciso formação?

Exactamente! Vamos recebendo informações que há países em que o polícia e o homem de fronteira é um elemento que até oferece um guia ao turista. São sinais desses que precisamos melhorar. Ainda há dias, recebemos das redes sociais uma fotografia de um agente abraçado com dois estrangeiros. Isso já é uma imagem que indicia que vai surgindo alguma sensibilidade de outros actores na perspectiva de aumentarmos o número de pessoas que nos visitam. Aliás, o turismo é uma actividade transversal. Não será só através do Mintur que as coisas vão acontecer. Por isso, no estatuto orgânico do Ministério temos uma comissão que incorpora vários departamentos ministeriais que interferem na melhoria da oferta turística e o conselho nacional do turismo que engloba entes públicos e privados.

Falamos do turismo há décadas, mas o peso do sector na economia é residual. Quer comentar?

O turismo é uma actividade de paz. A nível da imagem do nosso país, há pessoas que estão lá fora que pensam que ainda estamos em guerra. Por isso é que há um exercício grande coordenado pelo Ministério da Comunicação Social que visa a melhoria da imagem de Angola no estrangeiro. Por outro lado, temos consciência de que tanto o  Aviturismo como o Prodefatur são projectos que hão-de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população por serem inclusivos e participativos. Por isso apostamos nesses dois elementos porque darão emprego, uma consciência ambientalista e de conservação grande e as comunidades receptoras hão-de ver os seus valores naturais aproveitados. 

Em 2019, Luanda acolheu o Fórum Mundial do Turismo em que se garantiram investimentos de mil milhões de dólares. Já há algum sinal concreto?

O único sinal que temos de concreto foi a visita em Dezembro de uma delegação de investidores dos Emirados Árabes Unidos que manifestaram participar na gestão de algumas unidades hoteleiras.

Como dinamizar o turismo interno?

A intenção de estendermos os parques de campismo pelo país vai nessa direcção. Temos a noção de que o salário médio não permite poupança em função do valor dos empreendimentos. Então nós, enquanto entidade pública, devemos caminhar no sentido de proporcionar aos angolanos condições para um movimento turístico permanente e consequente. É certo que directamente não vamos interferir na componente salário, mas podemos contribuir para uma oferta de serviços mais acessíveis.

A supressão de vistos trouxe maior fluxo de turistas?

Há necessidade de se trabalhar na procura e na oferta turística. Isso também passa pela imagem do país. Mais uma vez, em vez de nos preocuparmos em falar no horizonte, devemos criar melhor oferta. Porque não vamos criar hospitais para turistas, ou água para turistas. Haverá necessidade de o país melhorar a sua infra-estrutura e produzir porque as importações de quase tudo não vão melhorar a concorrência. Estamos a acompanhar a situação do país, o importante é termos fé.

A actual conjuntura é, em si, um entrave, não?

É preocupante. Sabemos que o turismo pode ajudar na arrecadação de receitas, mas isso encontra barreiras por causa da actual conjuntura. Estamos a trabalhar para ultrapassar essas condicionantes.