QUANDO A ECONOMIA FECHA PORTAS

02 Sep. 2026 César Silveira Opinião

A sucessão de operações policiais das últimas semanas voltou a colocar a criminalidade no centro das preocupações nacionais.

QUANDO A ECONOMIA FECHA PORTAS
Mário Mujetes

A sucessão de operações policiais das últimas semanas voltou a colocar a criminalidade no centro das preocupações nacionais.

Há redes suspeitas de falsificação de moeda, grupos acusados de preparar assaltos e organizações investigadas por operações financeiras de dimensão extraordinária. São crimes diferentes, com motivações que não podem ser confundidas, e cada caso deverá ser tratado pelas autoridades com o rigor que a lei exige.

Mas há uma questão que merece ser colocada para além das detenções e das investigações: o que se está a fazer antes de o crime acontecer?

Não se trata de encontrar justificações económicas para quem escolhe o crime.

Pobreza, desemprego, dificuldades financeiras ou falência de um negócio não transformam o crime em comportamento aceitável.

Trata-se de outra coisa.

Se o Estado quer combater a criminalidade, não pode olhar apenas para quem entra no crime. Tem de olhar também para quem está a ser excluído das oportunidades legais.

E o problema não termina no crime. Quando as portas da economia se fecham, as consequências podem aparecer de muitas outras formas. Fala-se do aumento da criminalidade, mas também se deve falar do crescimento da prostituição, da dependência das apostas e do número de pessoas que, perante a falta de perspectivas, começam a acreditar que uma aposta pode substituir um salário ou que uma oportunidade aparentemente fácil pode resolver uma vida inteira de dificuldades.

É nesse terreno que prosperam também as burlas. Há quem perca dinheiro porque acredita estar diante de um negócio, de um investimento ou de uma oportunidade capaz de mudar a sua vida. Quanto maior a necessidade, maior pode ser a disposição para acreditar na promessa de dinheiro rápido.

E quando essa esperança termina em perda, ficam as dívidas, a frustração, a vergonha e, em alguns casos, graves problemas emocionais.

As consequências económicas de uma sociedade sem oportunidades não aparecem apenas nas estatísticas do emprego ou do crescimento. Podem aparecer também na saúde mental, nas famílias desestruturadas e na perda de esperança.

Por isso, discutir segurança é também discutir economia.

Uma pessoa que perde o emprego precisa de encontrar outro. Um comerciante que encerra a actividade deve poder tentar recomeçar. Um pequeno empresário que perde acesso ao capital precisa de ter alternativas para reconstruir o negócio ou encontrar outra actividade.

Mas será que existem condições para que esses recomeços sejam possíveis?

Esta é uma pergunta que a política de segurança também deveria fazer.

Porque combater o crime não pode resumir-se a aumentar a capacidade de investigação, deter suspeitos e levá-los aos tribunais. Tudo isso é indispensável. Mas uma política verdadeiramente preventiva precisa de actuar antes de a fronteira criminal ser ultrapassada.

Oportunidade para quem quer trabalhar. Financiamento para quem quer empreender. Protecção para quem procura uma saída. Punição para quem escolhe o crime.

É nesta combinação que o Estado deveria procurar uma política de segurança mais completa. O acesso ao crédito para micro e pequenas empresas continua a ser uma questão central. Não se trata de distribuir dinheiro indiscriminadamente nem de obrigar os bancos a financiar negócios sem viabilidade. Trata-se de criar mecanismos que reduzam os obstáculos para quem tem uma actividade economicamente sustentável, mas não dispõe de capital suficiente para crescer ou recomeçar. O mesmo vale para a burocracia, a fiscalidade e os custos de formalização. Se a actividade legal é excessivamente difícil, cara ou imprevisível, o Estado não deve surpreender-se quando uma parte da economia procura caminhos fora dela.

Não se pode afirmar que os crimes recentemente anunciados pela Polícia Nacional sejam consequência das dificuldades económicas. Não há elementos para estabelecer essa relação. Mas é urgente antecipar as perguntas.

A segurança de um país não se constrói apenas com viaturas policiais, operações e detenções. Constrói-se também com emprego, empresas, crédito, educação, Justiça eficaz e oportunidades.

A polícia deve prender quem comete crimes. A Justiça deve julgá-lo e puni-lo.

Mas o Estado também deve perguntar quantas pessoas poderiam ter permanecido no caminho da legalidade se tivessem encontrado, a tempo, uma oportunidade para trabalhar, empreender ou recomeçar.

César Silveira

César Silveira

Editor Executivo do Valor Económico