TANTO NA MARCA E POUCO NO PRODUTO ANGOLA

Angola quer ser vista como destino turístico, como país de negócios, como palco de grandes eventos, como porta de entrada para África.

TANTO NA MARCA  E POUCO NO PRODUTO ANGOLA
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Angola quer ser vista como destino turístico, como país de negócios, como palco de grandes eventos, como porta de entrada para África. Quer receber investidores, congressos, estrelas do desporto e da música. Quer aparecer nas redes sociais, nos grandes meios de comunicação e nos roteiros internacionais. E, pelo que tudo indica, os decisores perceberam, e bem, que uma marca-país também se constrói assim: criando acontecimentos, atraindo nomes conhecidos e produzindo imagens capazes de despertar curiosidade muito para além das suas fronteiras.

A passagem de Lionel Messi e da selecção argentina, a chegada de IShowSpeed, a presença de influencers internacionais de turismo como TravelTomTom e Daniel Illescas e, agora, o Grande Prémio de Luanda da E1, com Will Smith, LeBron James e outras figuras globais, fazem parte dessa ideia de projecto que quer ser mostrada.

Há uma estratégia. O Governo assumiu a aposta no turismo de negócios e eventos, criou estruturas para promover Angola como destino internacional e está a investir em infra-estruturas para receber grandes conferências, exposições e acontecimentos internacionais.

O problema começa depois da fotografia. Uma coisa é preparar Angola para receber Messi. Outra, muito diferente, é preparar Angola para receber o turista que, atraído por Messi, decide pagar do seu próprio bolso para conhecer o país. Messi e as grandes figuras internacionais que chegam ao país como convidados têm visto assegurado. transporte organizado, hospedagem escolhida, alimentação garantida, segurança, roteiro, acessos e lugares previamente seleccionados. São recebidos por uma Angola preparada para os receber.

Mas a marca Angola não será avaliada apenas por eles. Aliás, será avaliada menos por eles e mais pelo turista que desembarca sem motorista à espera. Pelo casal que procura um restaurante. Pela família que precisa de transporte. Pelo visitante que quer conhecer uma praia, um museu ou um mercado. Pelo estrangeiro que precisa de pagar uma conta, pedir informação, chamar um táxi ou simplesmente andar pela cidade.

É esse turista que interessa.

Porque o influencer pode mostrar Angola a milhões de pessoas. Messi pode despertar a curiosidade de milhões de fãs. A E1 pode colocar Luanda no mapa internacional dos grandes eventos. Mas o verdadeiro teste começa quando alguém, depois de ver tudo isso, decide comprar um bilhete de avião em busca do produto. A marca não termina no aeroporto. Não termina no palco. E não termina nos grandes hotéis ou restaurantes.

Ela continua no pequeno restaurante da esquina. No pequeno residencial. No táxi. Na loja de artesanato. No guia turístico. No café. No serviço de transporte. Na forma como o visitante é tratado quando sai do circuito oficial.

O pequeno negócio pode ser tão importante para a reputação do país como o hotel de cinco estrelas. Às vezes, é até mais importante, porque é aí que o turista tem contacto com a Angola que não foi previamente preparada para a fotografia.

E aqui está uma das fragilidades da estratégia. O Estado pode construir palácios de congressos, atrair grandes eventos, promover Angola internacionalmente e criar uma sofisticada marca de destino. Precisa, ao mesmo tempo, ajudar a elevar o padrão mínimo dos milhares de pequenos operadores que completam a experiência turística. Caso contrário, a Marca Angola e o Produto Angola andarão tão desencontrados a tal ponto que qualquer tostão investido na estratégia possa a vir a revelar-se desperdício financeiro.