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EMPREENDER NA EDUCAÇÃO

Escolas de explicação cobrem ‘faltas’ do Estado

ENSINO. Oferta limitada de escolas públicas leva à transformação de quintais em salas de explicação. Em troca, encarregados pagam mensalmente pelos serviços, prestados genericamente em condições precárias. Explicações garantem, no entanto, partilharem objectivo comum: ensinar e contornar o desemprego.

Escolas de explicação cobrem ‘faltas’ do Estado

 

Muitas famílias em Luanda, e um pouco pelo país, continuam a ter, como alternativa às salas de aulas autorizadas, as chamadas escolas de explicação. É uma espécie de meio-termo encontrado por quem se vê excluído pelas escolas públicas, face à limitação de vagas disponibilizadas pelo Estado, e pelos considerados elevados preços das escolas privadas.

Grosso modo, as escolas de explicação funcionam de forma desorganizada e com vários problemas subjacentes: fraca ou inexistente qualificação pedagógica dos professores, falta de material didáctico e ausência de condições físicas mínimas para o normal desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem. Ainda assim, várias pessoas, sobretudo jovens, encontram nessas escolas também a saída para a falta de  emprego, por isso resolveram arrendar espaços ou transformar quintais em salas de explicação. Em alguns bairros de Luanda, numa única rua, é possível encontrar-se duas ou mais explicações. E as exigências destes serviços também têm crescido, como o uso de batas, o cartão de estudante e a segurança.

Em Viana, no bairro da Caop B, rua da Guarda Passagem, está fixada a ‘Explicação Flor da Buba’, onde as aulas são por módulos, de acordo com as necessidade de cada aluno. Com 48 alunos, 12 dos quais isentos de quaisquer pagamentos, por conta de dificuldades financeiras dos encarregados de educação, a inscrição aqui custa 500, ao passo que a mensalidade vale mil kwanzas.

 Simão Manança, professor e proprietário da explicação, que existe há três anos, conta que o rendimento mensal varia entre os 25 e 30 mil kwanzas, valores que servem para a compra de giz, quadros e alguns bancos. Manança, com curso de formação de professores, pretende, entretanto, evoluir para uma escola comparticipada e retirar as crianças do bairro fora do sistema escolar, uma vez que, na circunscrição, não existem escolas públicas, mas apenas colégios, onde os preços “assustam” os encarregados educação. “Gosto de leccionar e ajudar o próximo”, confessa.

Com quatro professores e 94 alunos matriculados, está a ‘Explicação Aprender Crescer’, também em Viana, Kapalanga. Aqui lecciona-se da iniciação à 8.ª classe, sendo que até à 5ª. classe a mensalidade é de mil kwanzas. Da 6.ª à 8.ª classe, os alunos desembolsam dois mil kwanzas por mês.

José Dumbo, responsável da explicação, afirma que o rendimento mensal é “traiçoeiro e variável”, oscilando entre os 80 mil a 96 mil kwanzas, tendo em conta que alguns encarregados demoram a pagar as propinas. Na ‘Aprender a Crescer’, os professores auferem 15 mil kwanzas mensais e, de acordo com José Dumbo, a ideia passa por aumentar o número de salas de aulas e transformar o espaço numa escola comparticipada.

Na rua Ngola Mbandi, bairro Neves Bendinha, está a ‘Explicação Real’, que lecciona da 1.ª à 4.ª classe, no período da tarde. Com um total de 50 alunos, as inscrições são 400 kwanzas e as propinas são 1.100 para todas as classes.

Gomes Raul, estudante universitário e proprietário da explicação, conta que a paixão de ensinar é antiga, mas só em 2018 resolveu abrir a explicação junto com o seu primo Miguel Ndala. 

Na comuna do Havemos de Voltar, bairro Golfe 1, está a ‘Explicação Tio Manuel’. De manhã, estudam 30 alunos, sendo 15 na 1.ª; cinco na 2.ª e 10 na 3.ª classe, enquanto de tarde acontecem as aulas da 4.ª classe com 12 alunos. As inscrições custam 300 kwanzas e a mensalidade 700 kwanzas. As aulas decorrem em duas salas construídas de forma improvisada com chapas e esteiras.

Manuel João ‘Tio Manuel’ conta que não procura lucro, mas antes educar as crianças e ensiná-las a ler e a escrever de forma correcta. Em relação às demais explicações, aqui o encarregado não é obrigado a apresentar cédula, bastando que a criança tenha idade mínima de cinco anos.

EXPLICAÇÃO MAIS COLÉGIO

Voltando à Viana, no Kapalanga, está a explicação ‘Fidêncio &Leonel’. Os dois irmãos decidiram apostar na educação e, em 2008, abriram a explicação com os seus nomes no quintal dos seus pais. Com sete professores, a explicação lecciona da iniciação à sexta classe nos períodos da manhã e tarde, enquanto a noite está reservada ao ensino de adultos (alfabetização). Ao todo, estão matriculados 250 alunos, 18 dos quais no ensino de adultos que desembolsam mensalmente 2.500 kwanzas. Tal como na explicação ‘Flor da Buba’, aqui 18 alunos também não pagam por dificuldades financeira dos pais. Quem paga desembolsa, da iniciação à 6.ª classe, mil kwanzas mensais, e alunos são obrigados ao uso de batas, ao porte de cartão de estudante e à constituição de processo individual no acto da inscrição.

O proprietário considera “arriscado” determinar as receitas mensais, uma vez que muitos encarregados de educação “atropelam” os prazos de pagamento das propinas. Assegura, contudo, que não existe dívidas para com os docentes.

Depois de consolidadas as salas de explicação e fruto de alguns investimentos e poupanças, em 2018, os irmãos Fidêncio e Leonel arrendaram um antigo estabelecimento de ensino privado e criaram o colégio... ‘Fidêncio & Leonel’. “A nossa missão é prestar melhores serviços a comunidade”, explicam.