Com metade das fábricas paradas, Aldeia Nova precisa de 7 milhões de dólares para travar colapso
Um dos maiores projectos agro-industriais, a Fazenda Aldeia Nova opera actualmente a menos de 50% da sua capacidade e enfrenta uma severa crise financeira, agravada pela falta de matérias-primas e por uma dívida de 12 milhões de dólares que o Estado tem para com a empresa. Das oito fábricas instaladas, apenas metade permanece activa, resultando na descontinuação de linhas históricas como as conservas e os iogurtes para a merenda escolar. O Valor Económico esteve no projecto e observou de perto a produção e a realidade actual de uma das mais relevantes unidades integradas de produção agro-pecuária em Angola.
A Fazenda Aldeia Nova atravessa uma crise severa marcada pela paralisação da maioria dos seus serviços, fraca produtividade e um elevado nível de endividamento. O Estado figura como o maior devedor da empresa, com uma dívida que ronda os 12 milhões de dólares, apurou o Valor Económico, nas instalações da unidade.
Inaugurada em 2005 com a ambição de ser um pólo agro-alimentar de referência, concebido para produzir ovos, leite, iogurte, manteiga, queijo, requeijão, gelados e ração, o complexo opera hoje a uma fracção da sua capacidade total. Do ecossistema fabril original, apenas metade das infra-estruturas permanece activa: das oito fábricas instaladas, quatro estão totalmente paradas. O projecto Aldeia Nova nasceu inicialmente de uma parceria entre o Estado angolano e parceiros empresariais de origem israelita (ligados ao Grupo Mitrelli e à Vital Capital Fund).
A produção actual resume-se à ração animal, leite, queijos e manteiga. Linhas inteiras de negócio foram descontinuadas, incluindo a produção de ovos, gelados, conservas e os iogurtes destinados à merenda escolar. A direcção da empresa justifica o cenário com a escassez crítica de matéria-prima e de outros insumos essenciais.


No que diz respeito à produção de conservas, a empresa havia atingido o apogeu em 2018, quando produzia alimentos para os militares que estavam acantonados no município do Wako Cungo, província do Cuanza Sul, no âmbito da cooperação militar a nível da SADC. Já os iogurtes para a merenda escolar também foram descontinuados, depois de terem tido sucesso entre 2022 e 2024.
Devido à pouca produção de aves e gado, a empresa tem cedido o matadouro aos criadores da região para abaterem os seus animais, como forma de manter activas as instalações concebidas para o abate de mais de mil cabeças por dia. Alguns funcionários e moradores em redor da Aldeia Nova admitiram à nossa equipa de reportagem que a empresa tem baixado muito nos últimos tempos, tanto na produção como no seu impacto na comunidade vizinha. Um exemplo disso são os iogurtes, que até nas lojas da sede do município quase não se encontram. Manuel Sesse, morador no município há 22 anos, sublinha que já houve um período em que a empresa produzia muito, ao ponto de facilitar o emprego indirecto e a compra de produtos produzidos na Aldeia Nova a preços muito abaixo dos praticados noutros mercados. O munícipe, de 52 anos de idade, testemunha que teve um parente que trabalhava na fazenda e que conseguiu organizar a vida com o que ganhava, contudo, depois da Covid-19, a empresa teve de diminuir o pessoal e, neste momento, o primo perdeu o emprego, residindo actualmente na Huíla com a família.
Já a dona Beti, moradora da zona, diz restar-lhe apenas nostalgia dos velhos tempos, em que várias lojas eram abastecidas com produtos produzidos pela fazenda. Destaca que o ovo e o queijo nunca estiveram tão acessíveis como na época em que a empresa os produzia e parte deles era vendida localmente. Actualmente, a empresa produz apenas entre 4 e 5 mil litros de leite cru por dia, uma pequena quantidade de óleo de soja, de tempos a tempos, e 8 mil frangos por mês. Já a produção de iogurte e de queijo varia de acordo com as encomendas e a matéria-prima disponível. A ração animal produzida serve o universo animal local e o excedente é destinado ao comércio, dependendo da solicitação.


Para reverter o quadro sombrio, o administrador da Aldeia Nova, Hermenegildo Francisco, manifesta a necessidade de um investimento na ordem dos 7 milhões de dólares e a urgência da privatização dos 59% das acções que pertencem ao Estado, como forma de devolver a confiança dos investidores na empresa. A dívida de 12 milhões de dólares que o Estado tem para com a Aldeia Nova influenciou, de acordo com o administrador, a maximização dos passivos que a empresa tem com credores, clientes e com a Administração Geral Tributária (AGT), estando este último a rondar os 3 mil milhões de kwanzas.
A empresa tem actualmente 600 trabalhadores.










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