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Catadores explicam os ‘segredos’ do negócio

Ganhar dinheiro com o lixo

Ganhar dinheiro com o lixo

Resíduos. Actividade atrai pessoas de várias idades, incluindo crianças e idosos, que vasculham lixeiras e contentores, sem protecção, em busca do pão de cada dia.  Há quem tenha criado uma espécie de cooperativa para organizar os catadores de Luanda. 

 
Com o objectivo de organizar o trabalho dos catadores de lixo nos bairros de Luanda, Miguel Almeida resolveu empreender no negócio do lixo, criando o projecto ‘Angolatas e Angobidões’. 

O primiro passo foi o cadastramento de 73 catadores, que aguardam por apoios para, a qualquer instante, arrancar com os trabalhos. Nas contas de Miguel Almeida, falta uma carrinha e uma moto de três rodas (kupapatas) para a recolha do lixo em vários pontos, porta-a porta. Enquanto isso, o modelo de negócio já está desenhado. O lixo será comercializado às empresas e as receitas deverão cobrir os salários dos catadores. Desde já, como assegura Almeida, várias organizações, sobretudo estrangeiras, simpatizaram com o nosso projecto e mostraram-se disponíveis para acompanhar a iniciativa.

 
Os compradores e os custos… 

Na Kicando, Indústria de Bebidas Lda, em Cacuaco, o movimento de entrada e saída de camiões é frenético. Ao que soube o VE, a empresa paga 600 kwanzas por cada 24 garrafas, mas, por razões de segurança, o dinheiro só é entregue aos catadores, geralmente mulheres, um dia após a entrega das garrafas. 

Na Barra do Dande, Bengo, encontra-se a ADA, fábrica de aço para a construção civil. Aqui fomos informados que a unidade fabril compra sucatas a terceiros e um quilograma de ferro velho custa 30 kwanzas. Já em Viana e Cacuaco, o negócio é dominado por cidadãos estrangeiros na sua maioria nigerianos, malianos e eritreus. 

No posto localizado defronte à Cadeia Central de Luanda, no Sambizanga, Hibrain, 28 anos, compra apenas sucatas, banheiras e bidões e revende os mesmos nas fábricas da Funda e Viana. Com duas balanças, uma de plástico e outra de ferro, compra o quilograma de ferro a 15 kwanzas e o  de plástico a 100 kwanzas. Segundo o jovem revendedor, o negócio só é rentável, quando se paga bem aos catadores e, para fechar um contentor “com boas sucatas e banheiras”, são necessários quatro meses. 


A vida dos catadores 

Com a carga na cabeça e pau na mão, Domingas João, 72 anos, caminha a passos lentos em direcção aos arredores da Cadeia Central de Luanda, onde se situa o posto de pesagem e venda de plástico. ‘Velha Domingas’’, como também se deixa chamar, reside  em Caxito, Bengo, mas recolhe os resíduos em diversos contentores e lixeiras do mercado São Paulo e arredores, em Luanda. 

Segundo conta, a recolha começa cedo, por isso levanta da cama às cinco horas em direcção a Luanda. A doença da única filha forçou-a ao “sacrifício”, já que a retorno não compensa o esforço. “Não se ganha muito dinheiro”, precisa, explicando que o quilo de plástico vende a 100 kwanzas, o que lhe permite levar a casa ao fim do dia entre 500 e mil kwanzas. A soma é repartida entre as despesas de transporte e de alimentos e a rotina repete-se diariamente.  

  Devido à falta de emprego, Osvaldo Bernardo Cabanga, 28 anos, começou a catar lixo em contentores há dois anos. Com esposa e três filhos, diz não sentir vergonha da profissão por causa dos vizinhos. E, com adesão de muitas pessoas na recolha de lixo, conta já ter visto de tudo,  incluindo lutas entre colegas pela posse de dois contentores na zona do bairro Azul, na cidade de Luanda.  

Cabanga recolhe latas de bebidas e garrafas de água de plástico e, antes de comercializar os recipientes às vendedoras dos mercados e nas pequenas praças de rua, lava-os. Cada dez garrafas vende a 100 kwanzas.  “O dinheiro ganho é para comprar comida para a família”, explica. 

 
PERIGO À ESPREITA

A maioria dos catadores de lixo vivem em situação de pobreza extrema e todos os dias lutam pela sua sobrevivência, expondo-se a vários riscos e colocando também em risco determinado segmento de utilizadores finais. Exemplo disso são as garrafas de plástico que são apanhadas e vendidas a comerciantes que as utilizam como recipientes para líquidos como quissângua, óleo de soja e óleo de palma, vendidos na via pública, mercados e em praças a céu aberto.

Benvinda Augusto, 52 anos, é catadora de garrafas desde 2007 e trabalha em grupos de quatro senhoras. Conta que, no passado, existiam muitos recipientes em lixeiras, mas, com a adesão de mais pessoas, “as garrafas viraram ouro e diamante”. Tem como fonte os restaurantes e contentores da baixa de Luanda e, para manusear as garrafas, usa luvas.

Albertina Pinto, 58 anos, lamenta a “subida constante” dos alimentos da cesta básica nos mercados e diz que catar lixo é a única actividade que encontrou para sustentar os filhos.

Pelas mesmas razões está no ofício Marcelina Ventura, 47 anos. Com marido desempregado e cinco filhos, tem nesta actividade a única fonte de sustento.

 

Negócio pelo mundo


Alemanha, Coreia do Sul, Austrália, Eslovénia, Bélgica, Suíça, Holanda, Suécia, Luxemburgo, Islândia, Dinamarca e o Reino Unido são os países que mais reciclam resíduos no mundo. 

A Suécia é considerada tão eficiente na reciclagem que quase 100% do lixo que produz é reaproveitado, ao ponto de importar lixo. Estados Unidos, China, Índia e Brasil são os maiores produtores de lixo plástico no mundo, em torno de 11 milhões de toneladas ano. Na Finlândia, são recicladas nove de cada dez garrafas plásticas usadas e quase 100% das garrafas de vidro achadas como resíduos. 

Desde 2005, os moradores de Nova Iorque são obrigados a reciclar os seus aparelhos electrónicos ou pagar uma multa de 100 dólares por peça. O mais curioso é que a quantidade de latas e garrafas de refrigerante dispensada num ano pelos norte-americanos é suficiente para se chegar e voltar da Lua 20 vezes. Dados do Banco Mundial mostram que, em 2012, a população urbana produziu 1.300 milhões de toneladas de resíduos sólidos e espera-se que essa cifra ascenda a 2.200 milhões até 2025.