CAMINHO PARA OS PETRÓLEOS?

Do pequeno restaurante à banca, passando pela indústria alimentar, pelo agronegócio e pelas finanças, a expansão do Grupo Carrinho já permite uma pergunta que, há alguns anos, pareceria absurda: quando chega o petróleo?

CAMINHO PARA OS PETRÓLEOS?
Mário Mujetes

Do pequeno restaurante à banca, passando pela indústria alimentar, pelo agronegócio e pelas finanças, a expansão do Grupo Carrinho já permite uma pergunta que, há alguns anos, pareceria absurda: quando chega o petróleo?

Pode parecer provocatória, mas a pergunta já não é, porém, completamente absurda. O Grupo Carrinho construiu, em poucos anos, uma presença que atravessa alguns dos sectores mais importantes da economia angolana. Nasceu ligado ao comércio e à actividade alimentar, ganhou dimensão na indústria, avançou para o agronegócio e tornou-se um dos nomes relevantes na produção e distribuição de alimentos.

Depois veio a banca. A entrada no sector financeiro elevou a dimensão da ambição. O grupo tornou-se accionista único do BCI, maioritário no Keve e está envolvido numa operação que poderá colocá-lo também como principal accionista do BFA.

Portanto, já não se trata apenas de saber onde o Grupo Carrinho consegue chegar. A pergunta passou a ser outra: qual será o próximo território? E, num país cuja economia continua profundamente dependente do petróleo, a resposta que naturalmente aparece é esta: os petróleos.

Não porque exista, neste momento, uma operação conhecida que permita afirmar que o Grupo Carrinho está a preparar uma entrada no sector. Mas porque o petróleo é o maior negócio de Angola. É a principal fonte de exportações, uma das bases fundamentais das receitas do Estado e o principal gerador de divisas. Entrar nesse sector significaria completar uma presença empresarial que já cobre uma parte significativa dos grandes negócios da economia nacional.

Restariam, naturalmente, sectores como as telecomunicações e outros segmentos estratégicos. Mas a questão já não é saber se existe espaço para crescer. É perceber até onde pode ir um grupo cuja estratégia tem sido precisamente ocupar espaços que antes pareciam reservados a outros.

O coglomerado tem procurado construir uma narrativa própria sobre a sua história, insistindo numa trajectória empresarial anterior a 2017. E essa distinção é importante. O grupo existia antes da chegada de João Lourenço à Presidência da República. Tinha actividade, negócios e crescimento. Mas também é impossível ignorar a outra realidade: a velocidade e a dimensão da expansão depois de 2017.

Foi nesse período que deixou de ser percebido apenas como uma empresa ligada ao comércio e à alimentação e passou a afirmar-se como grupo com ambição industrial, presença no agronegócio e, posteriormente, uma posição cada vez mais relevante no sistema financeiro. Quanto desta expansão resulta da capacidade empresarial? Quanto resulta das oportunidades criadas pela transformação económica e financeira do país? E quanto depende das relações que um grupo desta dimensão necessariamente estabelece com o poder político e económico? O problema não é uma empresa querer crescer. Mas as dúvidas sobre o crescimento. É apenas resultado de uma estratégia empresarial extraordinariamente bem-sucedida? E é por isso que a pergunta sobre o petróleo, embora ainda hipotética, tem interesse. Mas mais do que saber se o Grupo Carrinho quer chegar ao petróleo, importa saber se tem capacidade para abarcar tanto da economia angolana — hoje, amanhã e depois. Porque uma coisa é aproveitar oportunidades em diferentes sectores e construir um grupo diversificado. Outra, é tornar-se um dos poucos actores empresariais com capacidade para estar, simultaneamente, na alimentação, na indústria, no agronegócio, na banca e, eventualmente, nos petróleos.